Entenda por que a Strategy, mesmo comprando bitcoin (BTC), é o atual calcanhar de Aquiles do mercado de criptomoedas

Faz quase um mês que a Strategy (STRC) fez a primeira venda de bitcoin (BTC) da história, um valor ínfimo de 32 unidades (equivalentes a US$ 100 milhões, em valores da época) frente às mais de 840 mil unidades detidas pela empresa de tecnologia.

No entanto, a venda foi mais que suficiente para atingir em cheio o sentimento dos investidores em cheio: em pouco menos de 30 dias, a maior criptomoeda do mundo perdeu cerca de 18% do valor, acumulando uma queda no ano da ordem de 32%.

O movimento não afetou apenas o mercado global de criptomoedas, mas também a própria Strategy. O pilar central de toda estratégia de acúmulo de BTC estava concentrado nas ações preferenciais STRC — e é aí que mora boa parte do problema.

Entenda a seguir como a estratégia virou uma arapuca para a Strategy.

A estratégia da Strategy (STRC)

Voltando alguns passos, a Strategy lançou a ação preferencial perpétua Variable Rate Series A Perpetual Stretch Preferred Stock (STRC) em julho de 2025. A proposta era relativamente simples: emitir ações a US$ 100, pagar dividendos mensais em dinheiro e ajustar a taxa de dividendos todos os meses para manter o preço próximo do valor de emissão.

Funciona assim:

A empresa vende a STRC por US$ 100 cada. Quem compra recebe dividendos em dinheiro todos os meses (agora quinzenalmente). A Strategy prometeu que, se o preço da STRC começar a cair muito abaixo de US$ 100, ela aumentará a taxa de dividendos para tornar o papel mais atraente. Com uma remuneração maior, mais investidores comprariam a STRC, fazendo seu preço voltar para perto de US$ 100.

“Seu modelo consiste em captar recursos no mercado — por meio da emissão de ações, dívida conversível e ações preferenciais — e usar esse capital para comprar mais bitcoin. O objetivo é aumentar a quantidade de BTC por ação ao longo do tempo, transformando a empresa em uma espécie de exposição alavancada ao ativo”, explica Luis Kuniyoshi, analista da Empiricus, na coluna Crypto Pulse publicada no fim de semana.

O ponto relevante é que, quando o preço do papel cai, o retorno efetivo exigido pelo mercado sobe. “Se a STRC paga US$ 11,50 por ano e negocia a US$ 100, o retorno é de 11,5% ao ano. Caso o preço caia para US$ 80, esse retorno efetivo sobe para aproximadamente 14,4%”.

Em outras palavras, para o investidor que compra o papel, esse aumento pode parecer atrativo. Para a companhia, no entanto, ele sinaliza uma piora nas condições de financiamento. Na prática, segundo Kuniyoshi, o mercado passa a exigir uma remuneração maior para assumir o risco de crédito da Strategy.

Assim, a STRC funcionou conforme o planejado. O instrumento permitiu que a Strategy adquirisse aproximadamente 127 mil bitcoins adicionais.

Funciona. Mas…

O analista explica que, durante o ciclo de alta, essa engrenagem funcionou de forma favorável. Com o BTC em alta e o mercado confiante na tese, a ação da Strategy passou a negociar com prêmio em relação ao valor dos Bitcoins detidos pela companhia.

Mas essa estratégia enfrenta seu primeiro teste de estresse da história. Isso porque, para esse mecanismo funcionar bem, o preço do bitcoin precisa estar em crescimento — o que, na visão dos analistas, acontece em um horizonte de tempo relevante.

Já no curto e médio prazo, as perdas se tornam relevantes para as ações da Strategy.

Nos últimos dias, a STRC renovou mínimas consecutivas, reforçando a percepção de maior aversão ao risco em relação à estrutura da companhia. No pior momento, as ações chegaram a tocar o patamar de US$ 74,57 — e os prêmios não acompanharam essa diferença de preços em relação à meta de US$ 100.

Apesar de sete aumentos consecutivos da taxa desde o início dessa estratégia, o papel com o papel negocia perto da casa dos US$ 87,00, o rendimento efetivo é de 14,4% — muito acima do cupom oficial divulgada pela empresa de 11,5%, o que mostra que o mercado considera a remuneração insuficiente.

“Isso não significa que a Strategy esteja prestes a vender seus bitcoins , mas levanta uma questão relevante: por quanto tempo a empresa conseguirá sustentar sua política de acumulação caso o custo de financiamento continue subindo e o BTC permaneça pressionado?”, diz Kuniyoshi.

O que de pior pode acontecer com a Strategy (STRC) e o bitcoin (BTC)?

A venda de bitcoins por parte da Strategy já se provou um dos principais fatores de pressão sobre o mercado de criptomoedas.

Em uma situação de estresse contínuo, a venda de bitcoins da Strategy peria gerar um ciclo de pressão tanto sobre o preço do BTC quanto nas ações STRC. Para Kuniyoshi, cabe ao investidor avaliar continuamente esse ponto de atenção para o mercado.