Tarcísio atrai siglas que apoiaram PSDB, triplica tempo de TV e terá 71% do horário eleitoral

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), conseguiu atrair para sua coligação todos os partidos que apoiaram o ex-governador tucano Rodrigo Garcia em 2022, quase triplicando o tempo de propaganda eleitoral a que terá direito no rádio e na televisão nas eleições 2026 .

Conforme projeção feita pelo Estadão , Tarcísio terá 70,8% do horário eleitoral gratuito, contra 29,2% de Fernando Haddad (PT). O pleito terá outros candidatos, mas eles pertencem a partidos que não terão tempo de rádio e TV por não terem superado a cláusula de barreira.

A previsão é que o governador tenha 6 minutos e 23 segundos de cada bloco de 9 minutos de propaganda exibidos durante o horário eleitoral – são dois por dia, às segundas, quartas e sextas-feiras. Os 2 minutos e 37 segundos restantes ficarão com Haddad.

A mesma proporção se repete para as inserções eleitorais, vídeos de 30 ou 60 segundos veiculados ao longo do dia durante a programação normal. São 14 minutos diários reservados para a eleição ao Palácio dos Bandeirantes. A estimativa é que as inserções de Tarcísio somem 9 minutos e 55 segundos por dia e as de Haddad, 4 minutos e 5 segundos.

“O horário eleitoral é estruturado, ali você consegue de fato encadear uma história mais longa, com começo meio e fim, de maneira a estimular que o eleitor acompanhe a trajetória do candidato e suas realizações”, explica o cientista político Rodrigo Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie. “As inserções são micro-histórias, repetidas ao longo do tempo”, disse ele.

O aumento no tempo de propaganda eleitoral de Tarcísio ocorreu porque ele manteve a aliança com PL e PSD e conseguiu os apoios da federação União Progressista, do MDB e do Podemos, que estavam na coligação de Garcia. O ex-governador foi de adversário para aliado de Tarcísio ao longo dos últimos quatro anos, inclusive se filiando ao Republicanos.

Tarcísio passou a última semana focado em fechar os últimos detalhes de sua coligação. Ele selou o apoio do Podemos ao almoçar na última quarta-feira, 21, com a presidente do partido, a deputada federal Renata Abreu, na ala residencial do Palácio dos Bandeirantes.

Na mesma data, recebeu o presidente do Avante, Luis Tibé, que publicou um vídeo declarando apoio nas redes sociais, e o presidente da federação PSDB-Cidadania, o deputado federal Alex Manente (Cidadania). Além desses partidos, o governador já havia fechado com a federação PRD-Solidariedade.

O presidente nacional do MDB, deputado federal Baleia Rossi, também divulgou um vídeo no qual formaliza o apoio a Tarcísio. A legenda já era presença esperada na coligação, visto que filiou o vice-governador Felício Ramuth em março, após o rompimento dele com Gilberto Kassab, presidente do PSD.

No caso de Tarcísio, apenas PL, federação União Progressista, PSD, MDB e Podemos, além do Republicanos, sigla do governador, contam para a distribuição do tempo de propaganda. A legislação eleitoral prevê que o cálculo seja feito apenas com as seis maiores bancadas de cada coligação.

Já a coligação de Haddad sofreu poucas alterações em relação a 2022. Naquele ano, o petista reuniu o apoio de sete partidos: PT, PCdoB e PV, reunidos em federação, PSB, PSOL e Rede, também federados, e Agir. A diferença, este ano, é que Haddad agregou o PDT à sua aliança, mas perdeu o apoio do Agir, que deve lançar nome próprio.

Com o PDT, o tempo de propaganda eleitoral do petista deve aumentar ligeiramente, passando dos 2 minutos e 18 segundos em 2022 para 2 minutos e 37 segundos agora, segundo a previsão.

As investidas de Haddad para ampliar o arco de alianças no Estado não prosperaram. O petista tentou abrir diálogo com o PSDB, rival histórico do PT em São Paulo, e com o PSD, cujo presidente, Gilberto Kassab, foi preterido na escolha do vice de Tarcísio. Nenhum dos dois partidos, porém, demonstrou disposição para compor a coligação do ex-ministro.

Em nota, a campanha do petista disse que as redes sociais e a participação nos debates serão essenciais durante o período eleitoral. “A população tem direito de saber a situação em que está seu estado. As viagens pelo interior também são parte da estratégia da chapa para mostrar o grau de calamidade de diferentes setores deste governo”, disse a assessoria de imprensa de Haddad. Procurada, a campanha de Tarcísio não se manifestou.

Situação de Tarcísio é oposta à de Flávio

Cientista político da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Marco Antonio Teixeira afirma que o tempo de propaganda eleitoral não perdeu centralidade porque a televisão continua sendo a principal porta de entrada dos candidatos na casa do eleitor – alimentando e sendo alimentado pelas redes sociais.

“O Tarcísio sai em grande vantagem em relação ao Haddad nesse ponto. E é o contrário do âmbito federal, onde o Lula terá essa vantagem [mais tempo de TV] sobre Flávio Bolsonaro, que não formou alianças com outros partidos até o momento”, afirmou o especialista. Flávio tenta obter o apoio da federação União Progressista e do Republicanos, mas a tendência é que as siglas fiquem neutras, liberando os diretórios estaduais.

Teixeira pontua que o cenário para Tarcísio é diferente do enfrentado por Rodrigo Garcia na última eleição, quando não conseguiu ir para o segundo turno mesmo tendo a maior coligação. Para o cientista político, Garcia herdou um desgaste de mais de 20 anos de governos do PSDB.

Ele também citou como exemplo Geraldo Alckmin, que em 2018 teve o maior tempo de televisão na eleição presidencial, mas não conseguiu ser competitivo em meio a um racha com uma ala do PSDB que apoiou Jair Bolsonaro (PL).

“Essa não é a realidade do Tarcísio aqui em São Paulo. Ele é bem avaliado como governador e lidera uma coligação que não tem muitas diferenças em relação a ele”, concluiu Marco Antonio Teixeira.

Distribuição do tempo de propaganda

O tempo da propaganda eleitoral no rádio e na televisão é calculado da seguinte forma: 90% é distribuído proporcionalmente ao número de deputados federais que cada partido elegeu na eleição de 2022. Também é levado em conta mudanças determinadas pela Justiça que resultam na substituição dos parlamentares – a chamada retotalização dos votos -, como ocorreu em 2025 e no início deste mês.

Os 10% restantes são distribuídos igualmente entre as candidaturas colocadas. Partidos que não superaram a cláusula de barreira na última eleição não têm tempo de televisão e nem acesso ao Fundo Partidário.