Vale (VALE3): por que a assembleia desta quarta pode definir os rumos da governança da mineradora

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A Assembleia Geral Extraordinária (AGE) da Vale (VALE3) , marcada para às 10h desta quarta-feira (22), vai muito além da escolha de um novo presidente para o conselho de administração.

A votação representa o capítulo mais importante de uma disputa iniciada há pouco mais de um mês, quando a Previ — maior acionista individual da mineradora — pediu a convocação da assembleia para substituir Daniel Stieler, então presidente do colegiado.

Desde então, o caso evoluiu para um embate público sobre os limites da atuação dos grandes acionistas na companhia e colocou novamente a governança da Vale sob os holofotes.

No centro da disputa estão dois cargos. Os acionistas escolherão quem comandará o conselho de administração e quem ocupará uma cadeira no colegiado deixada por Stieler. Na prática, a decisão ajudará a definir quem terá maior influência sobre a condução estratégica da mineradora nos próximos anos.

Embora o conselho não participe da gestão executiva, cabe ao órgão supervisionar a administração, definir diretrizes estratégicas, aprovar operações relevantes, acompanhar sucessões de executivos e avaliar o desempenho da diretoria. O presidente do conselho, por sua vez, exerce papel importante na organização dos trabalhos do colegiado e na interlocução entre conselheiros e administração.

A tendência, neste momento, é de vitória do candidato apoiado pela Previ para chefiar o conselho, mas não na disputa pela outra vaga no colegiado.

O mapa sintético de votação divulgado pela Vale na véspera mostra Manuel Lino de Sousa Oliveira, o “Ollie”, à frente de Marcelo Gasparino na disputa pela presidência do conselho. Para a vaga de conselheiro, Ieda Gomes aparece em vantagem sobre José Maurício Pereira Coelho, este referendado pela Previ.

O resultado, porém, ainda não está definido. Uma parcela relevante dos votos virá dos detentores de ADRs da companhia, que tradicionalmente são apresentados apenas durante a assembleia.

Um passo importante

A eleição ganhou importância porque extrapolou a disputa entre candidatos.

Desde que a Previ anunciou apoio a Ollie, parte do mercado passou a questionar se o movimento seria compatível com o modelo de governança adotado pela Vale após o fim da Valepar, quando a companhia buscou reduzir a influência dos antigos acionistas de referência sobre o conselho.

Marcelo Gasparino sustenta que, desde a reforma de governança iniciada em 2020, a escolha do presidente do conselho deveria ocorrer por um processo independente, conduzido pelos mecanismos internos da companhia, e não por indicação ou influência direta de acionistas relevantes.

A Previ, por outro lado, afirma que manifestar apoio a um candidato não significa interferir na governança da empresa. Segundo o fundo, Ollie reúne os requisitos técnicos, experiência e independência necessários para exercer a função.

Às vésperas da assembleia, a discussão ganhou um novo elemento.

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) chegou a abrir um processo administrativo para analisar questionamentos apresentados por investidores sobre a manifestação pública de apoio feita pela Previ. A autarquia pediu esclarecimentos à Vale, mas esse procedimento não impede a realização da assembleia, nem afeta, até o momento, o direito de voto do fundo de pensão.

O que virá

Independentemente do resultado, a AGE deve indicar qual será o equilíbrio de forças dentro da Vale daqui para frente.

Uma vitória dos candidatos apoiados pela Previ tende a reforçar a posição do fundo na companhia após o movimento que culminou na saída de Daniel Stieler.

Já um resultado mais apertado — ou uma eventual surpresa provocada pelos votos dos ADRs — mostraria que ainda existe resistência relevante entre investidores à volta de uma influência mais explícita dos grandes acionistas sobre a governança da mineradora.

Parte do mercado também tem certa desconfiança contra as indicações da Previ, cujo presidente é indicado pelo governo brasileiro.

O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, pressionou a Vale, mais no começo do seu mandado, por novos investimentos — o que foi interpretado por alguns como uma tentativa de interferência política na mineradora na ocasião.