Tesouro IPCA+ ainda é a melhor aposta da renda fixa? Especialista explica porque título continua pagando tão bem

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A nova escalada das tensões no Oriente Médio devolveu volatilidade aos mercados globais e fez as taxas dos títulos públicos brasileiros voltarem a subir. O movimento, impulsionado pela disparada do petróleo e pela perspectiva de juros mais altos por mais tempo no exterior, reacendeu o interesse dos investidores pelo Tesouro IPCA+, que voltou a oferecer remunerações historicamente elevadas.

Mas, para especialistas, o conflito é apenas parte da história. Embora o cenário internacional explique a abertura recente da curva de juros, o principal fator por trás das taxas elevadas dos títulos de longo prazo continua sendo doméstico: a deterioração das expectativas para o quadro fiscal brasileiro.

“O fim do conflito poderia trazer um arrefecimento das taxas, especialmente dos prefixados, mas isso tende a ser temporário caso os problemas estruturais do país permaneçam sem solução”, afirma Guilherme Almeida, head de renda fixa da Suno Research. Segundo ele, a curva longa continua refletindo, sobretudo, o prêmio de risco associado ao crescimento da dívida pública e à falta de perspectivas para um ajuste fiscal consistente.

Na avaliação do especialista, a proximidade das eleições também pesa sobre os vencimentos mais longos. Isso porque o mercado passa a precificar quais candidatos apresentarão propostas capazes de estabilizar as contas públicas. Enquanto esse cenário não ganha clareza, os investidores seguem exigindo retornos mais elevados para financiar o governo.

Petróleo reacende pressão sobre a curva

O agravamento do conflito no Oriente Médio elevou novamente os preços do petróleo e trouxe de volta o temor de uma inflação mais persistente no mundo. Para Almeida, esse movimento afeta diretamente as expectativas para a política monetária global.

Segundo ele, com o barril em altos patamares, cresce a percepção de que bancos centrais, como o Federal Reserve (Fed), poderão manter uma postura mais restritiva ou até voltar a elevar juros. Isso reduz o fluxo de capital para mercados emergentes, pressiona o câmbio e acaba exigindo prêmios maiores também nos títulos públicos brasileiros.

“O mercado não busca uma remuneração maior por si só. Os prêmios aumentam porque a percepção de risco cresce”, explica.

Fiscal continua sendo o principal vilão

Apesar da influência do cenário externo, Almeida afirma que o componente estrutural segue sendo determinante para as taxas reais de longo prazo.

Segundo ele, o mercado não enxerga hoje um plano fiscal capaz de estabilizar o crescimento da dívida pública. Pelo contrário, a avaliação é que medidas recentes de estímulo e expansão de gastos caminham na direção oposta à política monetária restritiva conduzida pelo Banco Central.

“O fiscal nunca deixou de ser um tema. Em alguns momentos perdeu protagonismo para as tarifas de Donald Trump ou para os conflitos geopolíticos, mas sempre permaneceu incorporado na curva de juros, principalmente nos vencimentos mais longos”, afirma.

Essa percepção também explica a dificuldade encontrada pelo Tesouro Nacional para vender papéis de vencimentos longos. Segundo Almeida, os leilões mais recentes mostram que os investidores aceitam comprar esses títulos apenas mediante remunerações cada vez maiores, levando o Tesouro a reduzir a oferta de alguns papéis.

Tesouro pode voltar a agir?

Diante da abertura das taxas, cresce também a expectativa sobre novas intervenções do Tesouro Nacional. Em março, uma intervenção extraordinária chamou a atenção do mercado para o risco das taxas elevadas nos títulos de curto prazo.

Para Almeida, no entanto, uma atuação mais intensa não parece necessária neste momento. Segundo ele, intervenções frequentes podem prejudicar a própria liquidez do mercado e tendem a produzir apenas efeitos temporários.

Na avaliação do especialista, caso novas medidas sejam adotadas, elas deveriam priorizar os títulos prefixados, por meio da suspensão de emissões ou recompras. Isso ajudaria a reduzir a inflação implícita desses papéis e poderia melhorar a demanda pelos títulos indexados ao IPCA. Ainda assim, ressalta que nenhuma atuação técnica substitui a necessidade de avanços na agenda fiscal.

Ainda vale comprar Tesouro IPCA+?

Mesmo com a volatilidade recente, Almeida considera que o momento continua bastante favorável para investidores de longo prazo.

Segundo ele, os títulos indexados à inflação oferecem hoje taxas reais entre 7% e 8%, níveis observados em poucos momentos desde 2003. Para quem pretende levar o papel até o vencimento, trata-se de uma oportunidade rara de travar uma remuneração elevada por muitos anos.

O especialista ressalta, porém, que o investidor deve construir a carteira a partir de seus objetivos, horizonte de investimento e necessidade de liquidez. “O investimento não é um fim em si mesmo”, afirma.

Na visão da Suno Research, o Tesouro IPCA+ segue sendo o principal “coringa” da renda fixa. Além de garantir um juro real elevado, o papel protege o investidor caso a inflação surpreenda para cima, cenário que voltou a ganhar força diante das incertezas geopolíticas e dos desafios fiscais do Brasil.