SAMBA: nova blockchain brasileira permitirá pagamentos globais com Pix e stablecoins

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SAMBA: nova blockchain brasileira permitirá pagamentos globais com Pix e stablecoins

Lugano, Suíça - Em entrevista exclusiva durante o Plan B Forum, Rocelo Lopes, criador da Truther e Chief of Digital Currency da Rezolve AI, revelou com exclusividade ao BeInCrypto a Samba Network. A nova blockchain foi projetada para processar 100 mil transações por segundo (TPS) e conta com o protocolo SS4P (Standard for Stablecoin Payment Protocol), inspirado no Pix para padronizar pagamentos com stablecoins.

O avanço das stablecoins como meio de pagamento está abrindo espaço para uma nova infraestrutura financeira global. E o Brasil pode participar desse movimento não apenas como um dos mercados de adoção de criptoativos, mas também como desenvolvedor de tecnologias voltadas a transações digitais.

Samba, Suíça e Pix

Rocelo, que atua no mercado de criptomoedas desde 2013, está trabalhando com outros dois desenvolvedores na criação da Samba Network. Segundo Rocelo, a rede está sendo desenvolvida para suportar até 100 mil TPS, com mecanismos de privacidade e funcionalidades específicas para operações financeiras. A proposta é permitir que diferentes emissores de stablecoins utilizem uma infraestrutura comum para pagamentos.

A blockchain chama-se Samba Network, em homenagem ao nosso país. E a gente já está trabalhando nessa blockchain para que suporte 100 mil transações por segundo, para que tenha privacidade e para que tenha tudo aquilo que um meio de pagamento precisa, revelou.

O executivo também antecipou o desenvolvimento do SS4P (Stablecoin Standard for Payments), protocolo de padronização de pagamentos com stablecoins inspirado no Pix. A iniciativa busca estabelecer um modelo de QR Code que possa ser utilizado por diferentes carteiras digitais e corretoras.

Para Lopes, as stablecoins representam o caminho mais imediato para a adoção de criptomoedas no comércio, enquanto o Bitcoin tende a consolidar seu papel como reserva de valor.

Durante a conversa, o empresário também abordou os desafios regulatórios do Brasil, a integração entre stablecoins e Pix, as barreiras para startups, a necessidade de maior conhecimento técnico dentro dos órgãos públicos e as diferenças entre os mercados brasileiro e suíço.

Você acaba de revelar dois projetos voltados ao futuro dos pagamentos com stablecoins. O que é a Samba Network e qual problema essa blockchain pretende resolver?

Rocelo Lopes — Estamos trabalhando em uma blockchain que tenha tudo aquilo de que um meio de pagamento precisa: privacidade e velocidade com infraestrutura

Hoje, se eu mando uma stablecoin da minha carteira para a carteira de outra pessoa, ela pode consultar meu saldo na blockchain, assim como eu posso consultar o saldo dela. Isso não pode acontecer em um meio de pagamento. Essa questão da privacidade também está sendo tratada.

A ideia é construir uma blockchain pública que permita esse tipo de operação. A partir daí, esperamos que emissores como a Tether e outros projetos de stablecoins, inclusive brasileiros, possam emitir seus ativos nessa infraestrutura, explica.

Além da Samba Network, você anunciou o SS4P. Como funciona esse protocolo e qual é a relação com o Pix brasileiro?

Rocelo Lopes — Ainda falta uma estrutura de pagamento padronizada para que todas as stablecoins possam ser utilizadas de maneira mais simples. E já estamos trabalhando nisso. O protocolo chama-se SS4P, que significa Stablecoin Standard for Payments . Estamos padronizando como se gera um QR Code de stablecoin para que outras carteiras e corretoras possam seguir o mesmo padrão.

Eu me baseei no Pix para criar grande parte desse white paper. Estamos conversando com grandes players para padronizar isso. Essa parte da estrutura do protocolo já está feita. O que falta é uma blockchain adequada para suportar esse modelo de pagamento.

Qual seria o impacto dessa infraestrutura para países que ainda não contam com sistemas de pagamento instantâneo tão desenvolvidos quanto o Pix?

Rocelo Lopes — O benefício pode chegar a países como Bolívia, Nigéria e outros mercados que ainda enfrentam dificuldades de infraestrutura para pagamentos instantâneos.

Se eu tenho uma blockchain que já oferece essa infraestrutura, o país precisa construir o arcabouço regulatório e fazer as interconexões necessárias. Grande parte do trabalho tecnológico já estará feita. É esse caminho que estamos seguindo. O futuro é stablecoin.

Stablecoins e a experiência brasileira

Lugano se tornou uma referência internacional na adoção de criptomoedas. O que o Brasil pode aprender com a cidade suíça, especialmente em relação aos pagamentos digitais?

Rocelo Lopes — O Brasil pode aprender, principalmente, como as regras foram feitas aqui e como a regulamentação foi construída.

Não houve uma loucura como a que está acontecendo no Brasil, de cobrar valores muito altos por uma licença. A primeira coisa que o país deveria aprender é como participar do ecossistema e aprender com ele sem punir as startups.

O que está acontecendo é que as startups estão sendo punidas, enquanto apenas os grandes players conseguem atender ao mercado, pontua Lopes.

Imagine uma empresa pequena que desenvolveu uma solução muito boa. Ela pode acabar ficando de fora. O que vai fazer? Vai embora do país e procura um lugar onde consiga funcionar.

Mesmo assim, a Suíça ainda tem alguns problemas. Por exemplo, eu acho equivocado aceitar bitcoin como meio de pagamento, mesmo utilizando Lightning.

Se o bitcoin é a moeda do futuro, vamos usá-lo no futuro. A moeda do presente é a stablecoin. É ela que podemos utilizar agora como meio de pagamento.

Como a Truther e a Rezolve AI estão conectando o universo das stablecoins ao sistema brasileiro de pagamentos, especialmente ao Pix?

Rocelo Lopes — Nós criamos uma carteira e conectamos nossa infraestrutura diretamente ao sistema financeiro brasileiro.

Por causa das dificuldades regulatórias, tivemos que sair do Brasil e estruturar a empresa e a infraestrutura em El Salvador. No Brasil, utilizamos a ponte de tokenização de depósitos fiduciários. O estrangeiro que chega ao Brasil normalmente não consegue pagar diretamente pelo Pix. Com a nossa solução, ele consegue.

Ele pode trocar USDT em El Salvador por uma stablecoin de reais. Quando vem ao Brasil e faz um pagamento, essa stablecoin é queimada, dentro do processo de tokenização, e os reais são pagos ao destinatário, complementa. Tudo acontece em segundos, sem que o usuário precise entender toda a tecnologia envolvida.

Usamos a experiência que adquirimos em outros países para fazer isso funcionar no Brasil. E eu costumo dizer que, se funciona no Brasil, funciona em qualquer lugar do mundo, porque o sistema brasileiro é extremamente complexo.

O Brasil avançou na adoção de stablecoins. O que ainda falta para que elas sejam utilizadas de forma mais ampla no comércio e no cotidiano?

Rocelo Lopes — Acho sensacional o avanço que estamos vendo, mas ainda existe falta de educação e de conhecimento.

Quando você entra em uma corretora de criptomoedas, muitas vezes a plataforma é tão complicada que dá vontade de sair imediatamente. E eu sou um cripto nativo.

Você baixa uma carteira e encontra dezenas de blockchains e centenas de criptomoedas. Imagine um usuário que mal conseguiu decorar um PIN de seis dígitos e agora precisa guardar 12 palavras de recuperação. Isso afasta as pessoas.

Precisamos simplificar a experiência. O usuário não deveria precisar entender blockchain para conseguir fazer um pagamento .

Você acredita que as stablecoins vão se tornar cada vez mais um meio de pagamento utilizado também pelas grandes empresas de tecnologia e pelo sistema financeiro tradicional?

Rocelo Lopes — Sim. A gente já está vendo grandes empresas de pagamentos trabalhando com stablecoins. A Mastercard está criando infraestrutura para oferecer carteiras a fintechs. A Visa já trabalha com liquidação em stablecoins.

Há três anos, aqui no Plan B, participei de um painel e disse que, em menos de cinco anos, as stablecoins seriam muito mais utilizadas do que eram naquele momento. Eu até brinquei que o T de USDT significava Trojan Horse , o cavalo de Troia que faria o sistema financeiro tradicional entrar nesse mercado.

E é exatamente isso que está acontecendo. A tendência é vermos cada vez mais empresas utilizando stablecoins.

O futuro é stable.

Regulação brasileira e desafios para startups

Você tem feito críticas à regulamentação brasileira de criptoativos. O principal problema está nas exigências dos reguladores ou na dificuldade de adoção das tecnologias?

Rocelo Lopes — Tem um pouco dos dois.

Primeiro, existe a questão regulatória e a influência do sistema bancário tradicional. Nenhum banco quer ver seu modelo de negócio sendo substituído por outro sistema financeiro do qual não participa ou que não controla.

Mas também precisamos reconhecer que há razões legítimas para exigir segurança.

Será que podemos permitir que uma startup formada por quatro jovens administre carteiras que somam R$ 100 milhões sem as ferramentas necessárias? Eu não acho adequado.

Ferramentas de KYC, segurança e conformidade custam caro. O problema é transformar essas exigências em barreiras que excluem os pequenos negócios.

Poderíamos criar limites proporcionais. Até determinado valor de custódia, uma startup poderia operar sob exigências menores. Conforme crescesse, precisaria de licenças mais robustas ou de parcerias com custodiantes.

O que não podemos fazer é simplesmente impedir que empresas inovadoras participem do mercado.

O que falta ao Banco Central e aos órgãos reguladores para compreender melhor as necessidades da indústria de criptoativos?

Rocelo Lopes — Faltam pessoas que tenham vivido o desenvolvimento desse mercado desde o início.

Não estou dizendo que os profissionais do Banco Central não são competentes. Eles são. Mas muitos têm experiência no sistema financeiro tradicional, e blockchain é um universo diferente. Precisamos de profissionais que tenham dez, 13 ou 15 anos de experiência nesse ecossistema, que conheçam os desenvolvedores e entendam como a tecnologia funciona na prática.

O governo poderia trazer especialistas do mercado para ajudar a construir regras, criar padrões e formar equipes. Eu digo que, além do presidente do Banco Central, o Brasil precisa de alguém que lidere uma agenda nacional de blockchain.

Nosso país tem um dos maiores mercados de criptoativos do mundo, mas ainda precisa investir muito em capacitação técnica.

Você também afirma que o Brasil enfrenta dificuldades para reter profissionais especializados em blockchain. Por quê?

Rocelo Lopes — O Brasil tem profissionais extremamente capacitados, mas muitos acabam saindo do país porque não encontram condições adequadas para desenvolver seus projetos.

Temos talentos reconhecidos internacionalmente, mas falta criar um ambiente em que eles possam trabalhar, inovar e desenvolver novas tecnologias.

Outro problema é a insegurança jurídica. Às vezes, uma pessoa desenvolve uma tecnologia que pode ser utilizada tanto para finalidades legítimas quanto para atividades ilícitas. E existe o risco do desenvolvedor ser responsabilizado pelo uso que terceiros fazem dela.

Precisamos oferecer mais proteção e segurança jurídica para quem está criando tecnologia.

Segurança, privacidade e o papel do governo

Você também critica a obrigatoriedade de declaração de criptoativos. Qual é sua principal preocupação com a exposição dessas informações?

Rocelo Lopes — Minha maior preocupação é a segurança das pessoas.

Quando o Estado concentra informações sobre quem possui criptomoedas e quanto cada pessoa tem, precisamos pensar no que acontece se esses dados vazarem. Estamos falando de ativos que podem ser transferidos diretamente, sem a possibilidade de ligar para uma central de atendimento e bloquear a operação, como acontece com um cartão.

Se criminosos tiverem acesso a informações sobre carteiras e patrimônio, isso pode colocar famílias em risco, ressalta.

Por isso, sou terminantemente contra a obrigatoriedade de declarar a posse de criptomoedas da maneira como essa questão é tratada. É preciso considerar os riscos de segurança e privacidade.

Que tipo de estrutura o governo brasileiro deveria criar para lidar com esses desafios?

Rocelo Lopes — Eu defendo a criação de um departamento específico de criptoativos dentro do governo.

Esse departamento deveria reunir profissionais que entendam de tecnologia, tributação, regulamentação e segurança pública. Deveria ter também agentes da Polícia Federal e da Polícia Civil para lidar com crimes envolvendo criptomoedas.

Não podemos olhar para esse mercado apenas pela perspectiva da arrecadação de impostos. É preciso compreender a tecnologia, os riscos e as oportunidades. Esse departamento poderia trabalhar com especialistas do setor privado para formar equipes e criar uma estrutura adequada.

Você estaria disposto a participar dessa iniciativa?

Rocelo Lopes — Sim. Eu não teria problema nenhum em trabalhar de graça para ajudar a formar esse departamento.

Não cobraria absolutamente nada do governo para contribuir com esse trabalho. Poderia dedicar seis meses ou um ano para ajudar na formação de profissionais, transferir conhecimento e deixar uma equipe preparada para desenvolver essa estrutura.

O que falta é esse encontro entre o governo e os principais atores do mercado.

O Brasil precisa aproveitar o conhecimento de quem construiu esse ecossistema para criar condições de desenvolvimento e inovação.

 A jornalista Aline Fernandes viajou para a Suíça a convite da Truther by RezolvePay.


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