Tarifaço em dose dupla: O impacto das novas taxas dos EUA na bolsa brasileira, segundo analistas

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O Brasil foi duplamente tarifado pelos Estados Unidos nos últimos três dias. Na quarta-feira (22), entrou em vigor uma alíquota de 25% sobre produtos brasileiros. Já nesta sexta-feira (24), foi anunciada uma sobretaxa adicional de 12,5%, elevando a cobrança total para 37,5%.

Segundo cálculos da Global Trade Alert, o Brasil o Brasil passou a ser o segundo país com a maior tarifa efetiva média entre todos os parceiros comerciais dos Estados Unidos, com alíquota de 17,7%, atrás apenas da China, cuja tarifa efetiva média alcança 27,2%.

A estrategista de ações da Nomad, Rebecca Nossig, avalia que, apesar da agressividade da política protecionista norte-americana, o impacto prático não recaiu de forma indiscriminada sobre toda a pauta exportadora brasileira. Isso porque o governo dos EUA incluiu uma ampla lista de exceções, preservando produtos considerados estratégicos para evitar desabastecimento interno.

No caso do Brasil, setores fundamentais para a balança comercial, como petróleo e gás, componentes aeronáuticos, celulose, carne bovina, café e suco de laranja, foram temporariamente poupados das tarifas. Ao todo, cerca de 147 itens ficaram de fora da nova sobretaxa de 12,5%.

Na avaliação da Monte Bravo, os efeitos tendem a ser significativos para setores específicos, mas limitados para a atividade econômica como um todo.

‘O pior já passou’

Os reflexos no mercado acionário também devem ser restritos. Para Rebecca Nossig, a dupla tarifação dos EUA já vinha sendo amplamente precificada pelos investidores ao longo das últimas semanas.

Segundo a estrategista, a pressão vendedora sobre o Ibovespa (IBOV) , principal índice da bolsa brasileira, está mais relacionada ao cenário geopolítico global e à realização dos preços do petróleo no mercado internacional.

Por volta das 11h40 (horário de Brasília), o Ibovespa recuava 0,93%, aos 175.083,44 pontos. No mesmo horário, o contrato do Brent para setembro — referência global para o petróleo — caía 2,88%, para US$ 97,78 por barril, na Intercontinental Exchange (ICE), em Londres.

A mesma leitura é compartilhada por Eduardo Carlier, codiretor da Azimut Brasil Wealth Management.

“As consequências para a bolsa, desta vez, são menores. No primeiro anúncio, a taxa atingia quase todos os produtos que o Brasil exportava para os EUA. Agora, o número de itens tarifados é menor”, afirmou ele, em entrevista ao Money Times.

Segundo Carlier, embora a medida represente um fator negativo, o principal ponto de atenção está na capacidade de negociação entre os governos dos dois países.

“A notícia não é boa, mas chama um ponto de atenção: como os governos vão encontrar um caminho para negociar isso de forma que seja mais positiva para o Brasil ao longo do tempo”, acrescentou.

Para o gestor, a principal preocupação não está nas tarifas em si, mas na forma como o governo brasileiro conduzirá as negociações daqui para frente e em possíveis medidas de retaliação. “O primeiro tarifaço foi, em certa medida, renegociado”, destacou Carlier.

Até o momento, o governo brasileiro criticou a nova sobretaxa de 12,5%, classificando-a como “arbitrária” e “injustificada”. O Palácio do Planalto também pretende recorrer aos mecanismos previstos na Lei da Reciprocidade Econômica e levar o caso ao sistema de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Para Raphael Figueredo, estrategista de renda variável da XP Investimentos, a nova rodada de tarifas sobre produtos brasileiros importados pelos EUA também não deve provocar efeitos tão negativos quanto os observados no primeiro anúncio.

Na avaliação dele, dois fatores diferem o anúncio do tarifaço atual dos anteriores: o efeito surpresa do primeiro anúncio e os cálculos do mercado indicando o baixo impacto das novas sobretaxas na economia brasileira.

“No entanto, na geopolítica e na diplomacia, tem algumas incertezas que podem fazer com que haja mais timidez do fluxo estrageiro na bolsa. Pode ser que o investidor reduza um pouco o percentual alocado no Brasil, mas não considero as tarifas como um ‘ game-changing ‘ no desempenho da bolsa brasileira”, afirma Figueredo.

Para o estrategista da XP, o desconto da bolsa, após desvalorização de cerca de 15% a 17% no período dos últimos dois meses, torna o Ibovespa atrativo para o estrageiro, ainda mais em um contexto de busca por ativos de economia real para além daqueles ligados à inteligência artificial .

Impacto na economia real

Na avaliação de Rodolfo Margato, economista da XP, o impacto das novas tarifas anunciadas pelos Estados Unidos também é limitado na economia brasileira. Isso, diz, ao considerar que as exportações para os EUA representam cerca de 2% do Produto Interno Bruto (PIB), além da lista de produtos isentos.

“O que vimos também no primeiro tarifaço do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi a capacidade de muitos setores produtivos em redirecionar os seus produtos para outras regiões. Então, ao olhar para a lista grande de setores isentos, o redirecionamento e a participação da balança comercial no PIB brasileiro, esse conjunto de fatores leva a um impacto macroeconômico pequeno”, afirma.

A estimativa inicial da XP para o primeiro do tarifaço dos EUA de 2025 era de um impacto negativo de 0,2 ponto percentual no PIB brasileiro. “Na nossa visão, isso não se materializou, foi algo mais perto de zero. Essa é a nossa visão, de novo, para 2026”, diz.