Braskem aprova recuperação extrajudicial para reestruturar US$ 10,9 bilhões

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Braskem aprova recuperação extrajudicial para reestruturar US$ 10,9 bilhões

A Braskem informou nesta segunda-feira (24) que o Conselho de Administração aprovou o ajuizamento de pedido de recuperação extrajudicial da companhia e de certas controladas. A medida tem como alvo obrigações financeiras quirografárias de aproximadamente US$ 10,9 bilhões, cerca de R$ 54 bilhões.

Dívidas quirografárias são aquelas que não têm garantia real, como imóveis ou máquinas dadas em penhor. Os credores desse grupo ficam atrás de outros na fila de pagamento em caso de insolvência.

Segundo o fato relevante enviado à CVM (Comissão de Valores Mobiliários), a companhia busca assegurar um ambiente jurídico estável para negociar e implementar a reestruturação. A Braskem afirmou que o procedimento tem "escopo limitado, estritamente financeiro". Fornecedores, clientes e demais parceiros comerciais ficam fora do processo, e esses contratos seguem sendo cumpridos normalmente.

O protocolo do pedido ocorrerá após a formalização dos documentos, informou a empresa. O UOL noticiou que o processo foi protocolado na Justiça de São Paulo nas primeiras horas desta segunda-feira (24).

Como funciona a recuperação extrajudicial da Braskem?

A recuperação extrajudicial é um instrumento previsto na Lei 11.101/05. Ela permite que a empresa renegocie débitos diretamente com seus credores, fora de um processo tradicional de recuperação judicial.

O modelo é diferente da recuperação judicial. Na via judicial, o processo é mais amplo e há fiscalização da Justiça desde o início. Na extrajudicial, a companhia negocia previamente as condições do plano e depois pede a homologação ao juiz.

Para abrir o processo, a Braskem precisa da adesão de um terço dos credores. Segundo o Brazil Journal, esse quórum foi atingido antes do pedido.

Após a homologação, a companhia terá 90 dias para apresentar e aprovar o plano definitivo de reestruturação. Nessa etapa, a exigência sobe para a maioria dos votos dos credores.

O objetivo, nos dois modelos, é evitar a falência e manter a empresa em operação.

O que pressionou a dívida da Braskem?

A Braskem já operava sob proteção judicial. A 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo havia concedido uma tutela de urgência que suspendeu execuções e bloqueios de bens por 60 dias. Esse prazo vence nesta semana.

Nos Estados Unidos, a companhia e suas controladas pediram em junho o reconhecimento da decisão brasileira. Quatro dias depois, a Justiça americana concedeu de forma preliminar um automatic stay, mecanismo que suspende automaticamente medidas de cobrança, pelo mesmo prazo da decisão no Brasil.

A empresa afirmou que intensificou as conversas com credores nas últimas semanas, mas não chegou a um formato de reestruturação. Credores apresentaram propostas indicativas e sem caráter vinculante. Braskem e seus assessores avaliaram alternativas como uma capitalização e o uso de ativos como garantia.

Os maiores credores são os detentores de títulos de dívida, conhecidos como bondholders, além de BNDES, Banco do Brasil, Itaú Unibanco, Bradesco e Santander.

Os pontos de impasse com os credores

Segundo apuração do Brazil Journal junto a pessoas próximas às negociações, quatro temas seguem em aberto. O primeiro é a necessidade e o tamanho de uma eventual injeção de dinheiro novo. O segundo é a conversão de dívida em ações, que diluiria os acionistas atuais.

Os outros dois pontos são as garantias que serão oferecidas aos credores e as condições de alongamento da dívida.

Ainda segundo o Brazil Journal, fundos de ativos estressados como Contrarian e Elliott pressionam por uma capitalização de até US$ 4 bilhões com participação da Petrobras. Os bancos defenderiam um desenho mais concentrado no alongamento dos prazos.

Balanço, rating e o peso da dívida

A Braskem lucrou US$ 664 milhões no segundo trimestre de 2026. O resultado reverteu o prejuízo de US$ 45 milhões registrado no mesmo período do ano anterior. Em reais, o lucro foi de R$ 3,33 bilhões.

A receita líquida somou US$ 4,30 bilhões, alta de 37% na comparação anual. O Ebitda recorrente saltou de US$ 74 milhões para US$ 1,04 bilhão, com margem passando de 2% para 24%. O Ebitda é um indicador que mede a geração de caixa da operação antes de juros, impostos, depreciação e amortização.

A companhia atribuiu o salto ao conflito no Oriente Médio, que restringiu a oferta global de matérias-primas e elevou os preços de petróleo e nafta. Isso pressionou para cima os spreads de resinas e químicos, ou seja, a diferença entre o custo da matéria-prima e o preço de venda do produto final.

Mesmo assim, a estrutura de capital seguiu como ponto de atenção. A dívida líquida ajustada, medida em dólares e sem a subsidiária mexicana, terminou junho em US$ 9,43 bilhões, alta de 3% sobre março. A alavancagem recuou de 18,18 vezes para 6,74 vezes, movimento explicado pelo avanço do Ebitda e não por redução do passivo.

A Fitch rebaixou a nota de crédito da Braskem de C para RD, classificação de inadimplência restrita. A agência citou o não pagamento de juros sobre obrigações financeiras.

Braskem Idesa e o Chapter 11 no México

A Braskem Idesa, joint venture com o Grupo Idesa, do México, pediu Chapter 11 nos Estados Unidos em 18 de agosto. O Chapter 11 permite que a empresa siga operando enquanto renegocia dívidas sob supervisão judicial.

O pedido faz parte de um acordo para reduzir a dívida em mais de US$ 920 milhões. O plano prevê um aporte de US$ 476 milhões da Braskem para manter o controle da subsidiária.

Como financiar esse aporte sem prejudicar os credores da holding é uma das discussões dos próximos 90 dias.

Novo controle e o passivo de Maceió

A Braskem passou por mudança de controle em meio à pressão financeira. A IG4 Capital, por meio do fundo Shine, passou a deter 50,1% das ações com direito a voto. A Petrobras ficou com 47%. A Novonor, ex-Odebrecht e controladora anterior, manteve 4% em ações sem direito a voto.

Criada em 2002, a Braskem é uma das maiores petroquímicas do país. Produz resinas plásticas como polietileno, polipropileno e PVC, além de insumos químicos como eteno e propeno. Tem operações no Brasil, nos Estados Unidos, na Alemanha e no México.

Além das margens apertadas do setor, o caixa da companhia foi pressionado pelos custos do desastre ambiental em Alagoas. A exploração de minas de sal provocou o afundamento do solo em bairros de Maceió e levou à remoção de milhares de moradores.

As ações da Braskem acumulam queda de 42% em 12 meses. A empresa vale cerca de R$ 3,6 bilhões na bolsa.

Leia a história original Braskem aprova recuperação extrajudicial para reestruturar US$ 10,9 bilhões por Lucas Espindola em br.beincrypto.com