De Asimov aos robôs: CEO da Tether traça o futuro da economia digital

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De Asimov aos robôs: CEO da Tether traça o futuro da economia digital

No Plan ₿ Forum, em Lugano na Suiça, Paolo Ardoino apresentou projetos que combinam Bitcoin, inteligência artificial (I.A), energia e comunicações descentralizadas. Executivo anunciou 15 acordos na indústria de mineração e defende tecnologias capazes de reduzir a dependência de sistemas centralizados.

O que a ficção científica de Isaac Asimov tem a ver com o futuro do dinheiro, da inteligência artificial e das relações de poder entre países? Para Paolo Ardoino, CEO da Tether, a resposta está na capacidade de antecipar transformações da sociedade e construir, desde agora, a infraestrutura tecnológica necessária para enfrentá-las.

Inspirado no conceito de psico-história, desenvolvido por Asimov na série Fundação , Ardoino apresentou no Plan ₿ Forum 2026 uma estratégia que ultrapassa o mercado de criptomoedas. Conhecida pela emissão do USDT, maior stablecoin do mundo, a Tether pretende ampliar sua atuação em energia, mineração de Bitcoin, comunicações descentralizadas e sistemas financeiros para máquinas e agentes de inteligência artificial.

Tether tem mais de 700 milhões de usuários

O tamanho da companhia ajuda a dimensionar essa ambição. O USDT possui capitalização de mercado estimada em US$ 184 bilhões, enquanto a Tether afirma ter alcançado mais de 730 milhões de usuários em todo o planeta.

Quando penso na Tether, penso em uma empresa que quer construir estabilidade na sociedade por meio da inclusão financeira.

Ardoino afirmou que a proposta é utilizar tecnologia e conhecimento científico para desenvolver soluções capazes de enfrentar problemas estruturais.

Precisamos reunir informações, da macroeconomia ao comportamento social, das finanças à tecnologia, para encontrar maneiras melhores de criar soluções que reduzam o sofrimento na sociedade.

Isaac Asimov e a tentativa de antecipar o futuro

Na série Fundação , a psico-história combina matemática, estatística, história e comportamento coletivo para projetar os rumos de grandes populações. Ardoino utilizou essa ideia para explicar como a Tether pretende identificar tendências econômicas e tecnológicas antes que seus efeitos se tornem evidentes.

O executivo defendeu que desafios aparentemente impossíveis podem ser enfrentados quando divididos em etapas menores.

Se você consegue pegar problemas muito complexos e dividi-los em ações concretas, pode chegar a algum lugar. Se olhar apenas para o problema em sua totalidade, ele pode parecer assustador.

Como exemplo, lembrou que poucos integrantes do mercado financeiro tradicional imaginariam, em 2014, que uma empresa criada por empreendedores italianos alcançaria a dimensão atual da Tether. O Bitcoin, em sua avaliação, representa outra transformação inicialmente subestimada.

O Bitcoin está mudando o mundo. E também tem a capacidade de mudar o equilíbrio de poder entre os países.

Inclusão financeira é apenas o começo

Ao abordar a expansão do USDT, Ardoino destacou o papel das stablecoins em países que enfrentam inflação elevada, desvalorização cambial e dificuldades de acesso ao sistema bancário. Caso do Brasil.

Segundo ele, a Tether alcançou mais de 730 milhões de usuários, impulsionada principalmente pela demanda por dólares digitais em economias instáveis.

Essas pessoas vivem em países onde a inflação pode chegar a 100% ao ano e onde as moedas nacionais perdem valor rapidamente em relação ao dólar americano. Para essas famílias, ter acesso ao dólar é uma questão de sobrevivência.

O executivo questionou a incapacidade dos sistemas financeiros tradicionais de atender populações de baixa renda.

Como é possível que uma pequena empresa como a Tether tenha conseguido incluir financeiramente centenas de milhões de pessoas que antes estavam excluídas, simplesmente porque eram pobres e não geravam dinheiro suficiente para interessar ao sistema financeiro?

Apesar da expansão, Ardoino considera que o acesso ao dinheiro digital representa apenas uma etapa de um projeto mais amplo.

Vamos supor que resolvemos o problema da inclusão financeira. Isso é suficiente? Não.

Independência tecnológica para pessoas e países

Um dos conceitos centrais da apresentação foi The Independence stack , conjunto de tecnologias concebidas para reduzir a dependência de sistemas centralizados. A proposta reúne soluções financeiras, energéticas, computacionais e de comunicação que possam ser utilizadas sem a necessidade de um único fornecedor.

Queremos que as pessoas sejam independentes. Que as famílias, que as cidades, as comunidades e os países sejam independentes.

Para Ardoino, a concentração da infraestrutura digital em poucas empresas representa um risco para a autonomia econômica. Por isso, defende que tecnologias como inteligência artificial e comunicações também adotem princípios de abertura e descentralização.

A independência começa no pequeno, não no grande. O conceito de independência é que cada um de nós tenha controle sobre a tecnologia que utiliza.

Energia na África: projeto mira 200 milhões de pessoas

Uma das iniciativas apresentadas envolve o fornecimento de eletricidade a comunidades africanas sem acesso regular à rede de distribuição.

Ardoino descreveu o investimento da Tether em uma empresa que desenvolveu quiosques equipados com painéis solares e baterias recarregáveis. O sistema permite que moradores utilizem celulares, rádios e televisores sem depender da instalação de grandes redes elétricas.

Segundo o executivo, a operação já atende aproximadamente 2 milhões de pessoas por meio de cerca de 1.500 quiosques. Os usuários pagam mensalidades de 3 a 5 USDT, dependendo da quantidade de recargas. O modelo também gera oportunidades de trabalho para mulheres nas comunidades atendidas.

É um projeto sustentável porque encontra um equilíbrio entre oferecer um serviço acessível e criar um negócio que pode continuar crescendo.

A meta apresentada é alcançar 100 mil quiosques nos próximos cinco anos, beneficiando aproximadamente 30 milhões de residências.

Se fizermos um bom trabalho, acredito que em cinco anos poderemos passar de aproximadamente 1.700 quiosques para 100 mil. Isso significa levar energia a cerca de 30 milhões de casas, alcançando 200 milhões de pessoas.

Tether anuncia 15 acordos na indústria de mineração

Entre os anúncios feitos por Ardoino neste sábado (24) , o destaque fica com a expansão do Mining Development Kit (MDK), plataforma de código aberto desenvolvida para facilitar a operação de equipamentos de mineração de Bitcoin.

Ardoino anunciou a assinatura de 15 acordos com participantes relevantes da indústria interessados em desenvolver integrações com a tecnologia.

Estou muito orgulhoso de anunciar que a equipe do MDK fez um excelente trabalho. Recentemente, assinamos 15 memorandos de entendimento com grandes participantes da indústria de mineração de Bitcoin que estão construindo sobre essa plataforma.

O MDK permite administrar equipamentos de diferentes fabricantes por meio de ferramentas comuns, reduzindo a dependência de sistemas proprietários. Entre os participantes anunciados pela Tether estão Bitdeer, BITMAIN, Canaan, F2Pool, Foundry Digital, MicroBT e OCEAN.

Conforme o CEO da Tether, o objetivo é estabelecer uma infraestrutura aberta que beneficie desde pequenos mineradores até grandes operações industriais.

Nosso trabalho é coordenar essas grandes empresas para que construam sobre uma mesma infraestrutura aberta, transparente e acessível a todos.

O também CTO da Bitfinix afirmou que a Tether possui aproximadamente 150 mil bitcoins e destacou os investimentos da companhia em operações de mineração.

Holepunch e Keet: comunicação sem servidores centrais

Outra frente estratégica da Tether envolve o desenvolvimento de tecnologias de comunicação descentralizada.

Ardoino apresentou o Holepunch, conjunto de ferramentas que permite criar aplicações baseadas em conexões diretas entre dispositivos, conhecidos como peer-to-peer . Nesse modelo, os usuários podem trocar informações sem depender necessariamente de servidores controlados por uma única empresa.

A internet foi construída desde o início para ser peer-to-peer. Foram os incentivos econômicos das grandes empresas de tecnologia que a empurraram para a centralização.

Como exemplo, destacou o Keet, aplicativo de mensagens desenvolvido com essa tecnologia, que, segundo ele, já ultrapassou 7 milhões de usuários. Uma das funcionalidades apresentadas foi a comunicação direta por Bluetooth entre dispositivos próximos, mesmo em situações de conectividade limitada.

Se você está em um avião sem internet ou em um show onde o Wi-Fi e o sinal não funcionam, ainda pode se comunicar com seus amigos e familiares.

Ardoino também comparou os custos de infraestrutura. Segundo as estimativas apresentadas, uma plataforma convencional de mensagens com 100 milhões de usuários poderia gastar entre US$ 70 milhões e US$ 120 milhões anuais.

No modelo do Keet, afirmou, que a necessidade de infraestrutura centralizada é eliminada, reduzindo significativamente os custos para desenvolvedores.

Carteiras digitais para robôs e agentes de IA

Uma das partes mais futuristas da apresentação foi dedicada à possibilidade de máquinas e sistemas de inteligência artificial se tornarem participantes ativos da economia.

Ardoino apresentou o Wallet Development Kit (WDK), conjunto de ferramentas que permite desenvolver carteiras digitais com suporte a Bitcoin, Lightning Network e stablecoins. A tecnologia foi concebida para atender pessoas, dispositivos conectados e agentes de inteligência artificial.

O WDK não foi construído apenas para seres humanos. Ele também foi desenvolvido pensando nas máquinas e nos agentes de inteligência artificial.

O executivo descreveu um cenário futuro no qual bilhões de robôs e agentes autônomos poderão realizar pagamentos, contratar serviços e executar transações econômicas.

No futuro, teremos 10 bilhões de seres humanos, 10 bilhões de robôs e um trilhão de agentes de inteligência artificial.

Sem estabelecer um prazo para essa projeção, Ardoino argumentou que a infraestrutura financeira necessária precisa ser desenvolvida antes que a demanda se torne generalizada.

E se esses robôs fossem controlados por sistemas abertos de inteligência artificial e utilizassem sistemas monetários abertos, permitindo que realizassem micropagamentos em Bitcoin?

Para ele, antecipar essas necessidades representa uma vantagem estratégica.

A tecnologia precisa estar disponível no momento em que você precisar dela. Se começar a construí-la apenas quando ela se tornar necessária, já será tarde demais.

De uma stablecoin à infraestrutura do futuro

O discurso de Ardoino em Lugano revela uma mudança significativa na estratégia da Tether. Conhecida mundialmente pela emissão do USDT, a companhia busca consolidar presença em setores que vão muito além do mercado de criptomoedas.

Essa diversificação, porém, traz desafios de diferentes naturezas. Projetos de energia exigem investimentos em infraestrutura física, enquanto plataformas descentralizadas precisam conquistar usuários e demonstrar segurança e confiabilidade. Já as ferramentas financeiras voltadas à inteligência artificial dependem do amadurecimento de um mercado ainda em formação.

Há também diferenças, por exemplo, entre a descentralização defendida pelo executivo e o funcionamento do próprio USDT, cuja emissão permanece sob responsabilidade de uma empresa privada. Ainda assim, a apresentação indica que a Tether pretende utilizar sua posição financeira e tecnológica para participar da construção de uma infraestrutura econômica mais abrangente.

A referência a Isaac Asimov sintetiza essa ambição. Assim como a psico-história imaginada em Fundação procura antecipar transformações da humanidade, Ardoino defende o desenvolvimento de tecnologias capazes de responder às necessidades futuras da sociedade.

O que estamos tentando fazer é prever para onde a tecnologia e a sociedade estão caminhando e construir hoje as ferramentas que permitirão às pessoas ter mais poder e independência no futuro.

Mais de uma década após a criação do USDT, a Tether tenta demonstrar que o modelo de infraestrutura financeira digital que ajudou a popularizar pode ser aplicado a outros setores.

Para Paolo Ardoino, a próxima grande disputa da economia global não será definida apenas por quem controla o dinheiro, mas também por quem desenvolve a energia, as redes de comunicação, os sistemas de inteligência artificial e a infraestrutura financeira que permitirá a pessoas e máquinas participarem da economia digital.

 A jornalista Aline Fernandes viajou para a Suíça a convite da Truther by RezolvePay.

Leia a história original De Asimov aos robôs: CEO da Tether traça o futuro da economia digital por Aline Fernandes em br.beincrypto.com