El Niño traz vencedores, perdedores e ‘risco de 5 milhões de toneladas’, avalia Cesar Castro Alves, do Itaú BBA

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O possível retorno de um El Niño forte passou a ser a principal variável de risco para a safra 2026/27 na avaliação do Itaú BBA .

Segundo Cesar de Castro Alves, gerente da Consultoria Agro do banco, uma quebra de produção semelhante à registrada em Mato Grosso em 2023 poderia retirar cerca de 5 milhões de toneladas de soja do mercado global e alterar significativamente o equilíbrio entre oferta e demanda.

Em apresentação na 12ª edição do Agro em Pauta, Alves explicou que o mercado internacional vive hoje uma situação muito mais sensível do que há poucos anos.

Enquanto anteriormente havia um excedente próximo de 15 milhões de toneladas entre produção e consumo mundial de soja, atualmente esse colchão praticamente desapareceu.

“Se repetirmos a quebra de Mato Grosso de 2023 na realidade atual, sairíamos de um mercado praticamente equilibrado para um déficit de cerca de 5 milhões de toneladas”, afirmou.

Apesar da simulação, o especialista ressaltou que esse ainda não é o cenário-base do banco. A oferta global de soja segue elevada em 2026/27, com a produção estimada em 441 milhões de toneladas.

Para a safra 2026/2027, o Itaú BBA projeta estoques globais finais de 121 milhões de toneladas, abaixo da projeção de 125 milhões de toneladas do USDA.

Mato Grosso será decisivo para soja

Segundo Alves, a intensidade do El Niño ainda é incerta, mas os modelos climáticos chamam atenção pelo rápido aquecimento das águas do Pacífico, comportamento semelhante ao observado antes de eventos fortes registrados em anos como 2015 e 2023.

Na avaliação do consultor, o principal ponto de atenção será Mato Grosso, maior produtor brasileiro de soja.

“Tudo vai convergir para o desenho da safra do Mato Grosso”, afirmou.

Caso o estado consiga produzir normalmente, o mercado deve continuar relativamente equilibrado. Porém, uma quebra relevante pode provocar uma reação muito mais intensa nos preços do que em anos anteriores.

Há vencedores e perdedores com El Niño

Alves destacou que o El Niño não produz impactos homogêneos. Enquanto algumas regiões enfrentam perdas expressivas, outras podem até ampliar sua produtividade, criando um ambiente de vencedores e perdedores.

Foi o que ocorreu em 2023, quando produtores que escaparam dos problemas climáticos conseguiram colher normalmente e foram beneficiados em relação aos concorrentes.

Além do Centro-Oeste, o consultor vê atenção redobrada para o Sul do país. Embora o El Niño costume favorecer a região, excesso de chuva pode comprometer culturas como trigo e arroz, reduzindo produtividade e qualidade.

Fertilizantes continuam no radar

Outro fator de preocupação continua sendo o custo de produção.

Segundo Alves, a recente escalada das tensões no Golfo Pérsico pressionou os fertilizantes. A ureia recuou nas últimas semanas, trazendo alívio para o milho safrinha, mas o mercado de fosfatados permanece pressionado.

O principal problema é o enxofre, cuja oferta segue limitada ao mesmo tempo em que cresce rapidamente a demanda da indústria de baterias para veículos elétricos.

Na avaliação do consultor, esse cenário pode levar muitos produtores a reduzir investimentos em tecnologia e adubação, aumentando a dependência das condições climáticas para alcançar boas produtividades.

Mesmo assim, Alves destacou que o problema atual do mercado agrícola não está na demanda global.

Segundo ele, o consumo de soja continua crescendo, impulsionado principalmente pelo uso do óleo de soja na produção de biocombustíveis. O que mantém as cotações pressionadas é o avanço da oferta, especialmente após as boas safras registradas pelo Brasil nos últimos anos.