Bitcoin pode virar colateral do sistema financeiro, diz CEO em Lugano

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Bitcoin pode virar colateral do sistema financeiro, diz CEO em Lugano

Em painel sobre o futuro dos mercados de capitais, executivos da Blockstream e da Diaman Partners discutiram o avanço da adoção institucional, os desafios da custódia e os limites da tokenização de ativos.

Lugano, Suíça — O futuro do Bitcoin no sistema financeiro pode estar menos relacionado à sua utilização como meio de pagamento e mais à capacidade de funcionar como ativo de garantia para bancos, empresas e governos. Essa foi uma das principais teses defendidas por Daniele Bernardi, CEO da Diaman Partners, durante o evento The Future of Capital Markets , realizado nesta quinta-feira (22), em Lugano, na Suíça.

A declaração ocorreu no painel Building a Fully Integrated Bitcoin Financial Ecosystem , que reuniu executivos e especialistas. O grupo discutiu no palco a integração entre custódia, mercados de capitais, crédito e pagamentos baseados em Bitcoin.

Moderado por Sean Bill, cofundador e Chief Strategy Officer da BSTR, o debate contou com Julien Lederer, Chief Investment Officer da Blockstream Capital Partners; Alfonso Delgado, Senior Advisor da Blockstream Capital Partners; Fredrik Werneman, Senior Advisor de Asset Management da mesma empresa; e Daniele Bernardi, CEO da Diaman Partners.

Ao longo da discussão, os participantes apontaram que a próxima etapa da adoção institucional dependerá não apenas do interesse dos investidores. Mas sobretudo da construção de uma infraestrutura capaz de atender às exigências de segurança, liquidez e gestão de riscos do mercado financeiro tradicional.

Bitcoin como colateral: uma nova função para o ativo

Uma das declarações mais relevantes do painel veio de Bernardi. Ele apresentou uma perspectiva sobre o papel que o Bitcoin poderá desempenhar na infraestrutura financeira global.

Para o executivo, a principal vantagem da rede Bitcoin não está necessariamente na velocidade ou no custo das transações. Ele observou que já existem sistemas de pagamentos, especialmente na Europa, capazes de realizar transferências instantâneas a custos reduzidos.

A diferença, segundo Bernardi,

Está nas características do Bitcoin como ativo descentralizado, cuja emissão e regras fundamentais não dependem de uma autoridade monetária ou instituição financeira específica.

Na avaliação do executivo, essa característica poderá permitir que o Bitcoin desempenhe uma função semelhante à de ativos utilizados como garantia em operações financeiras.

Bernardi relacionou sua tese à importância da confiança no colateral utilizado pelo sistema bancário e lembrou a crise financeira de 2008. À época, a deterioração da confiança em determinados instrumentos financeiros contribuiu para uma crise de liquidez e de crédito.

Nesse contexto, ele defendeu que o Bitcoin poderia, no futuro, funcionar como colateral para bancos, empresas e até governos.

A visão apresentada desloca parte do debate sobre o Bitcoin de sua utilização como investimento ou instrumento de pagamento para seu potencial papel na estrutura de garantias do sistema financeiro. Entretanto, a tese representa uma perspectiva de longo prazo. A adoção do BTC em larga escala ainda dependeria de condições regulatórias, mecanismos de gestão de risco e estruturas institucionais adequadas.

Custódia tripartite pode reduzir riscos para investidores institucionais

Outro tema central do painel foi a evolução dos mecanismos de custódia de ativos digitais, especialmente diante das exigências de segurança dos investidores institucionais. Bernardi destacou os benefícios dos modelos de custódia tripartite, que permitem aos investidores negociar ativos digitais sem necessariamente manter todos os recursos depositados diretamente nas exchanges.

Para explicar o conceito, o executivo utilizou uma analogia com os cassinos.

No modelo tradicional, o participante entrega seu dinheiro ao estabelecimento antes de começar a jogar. Caso o cassino enfrente problemas financeiros, os recursos mantidos sob sua responsabilidade podem ficar expostos. Em uma estrutura alternativa, o dinheiro permanece sob custódia de uma instituição independente, enquanto o participante recebe autorização para operar dentro de determinados limites.

Segundo Bernardi, lógica semelhante pode ser aplicada ao mercado de ativos digitais, permitindo que investidores negociem Bitcoin e stablecoins enquanto mantêm os ativos sob custódia especializada, sujeitos a mecanismos de garantia e liquidação.

O modelo busca reduzir a exposição ao risco de contraparte, além de diminuir a necessidade de transferências frequentes entre plataformas de negociação e custodiantes. Para gestores institucionais, essas estruturas também podem facilitar controles operacionais e a comprovação da existência dos ativos mantidos em carteira.

Segurança e segregação patrimonial ganham importância

Alfonso Delgado, Senior Advisor da Blockstream Capital Partners, aprofundou a discussão sobre os critérios que investidores institucionais devem considerar ao selecionar um custodiante de ativos digitais.

Segundo Delgado, a análise precisa ir além da reputação da empresa responsável pela custódia. O executivo destacou o armazenamento offline de ativos, os mecanismos de autorização para movimentação de recursos, as coberturas de seguros e a estrutura jurídica utilizada para proteger o patrimônio dos clientes.

O especialista também ressaltou a importância de avaliar como os ativos são segregados e quais procedimentos são adotados para reduzir riscos operacionais e de segurança. Outro ponto abordado foi a necessidade de compreender a exposição indireta às plataformas de negociação.

Mesmo quando os investidores adotam estruturas de custódia especializadas, a utilização de exchanges pode introduzir riscos adicionais que precisam ser considerados na gestão institucional.

A discussão evidencia uma mudança de prioridades no mercado de ativos digitais. Para grandes investidores, a segurança operacional e jurídica pode ser tão relevante quanto a rentabilidade das estratégias.

Tokenizar um fundo não significa criar liquidez, alerta Bernardi

A tokenização de ativos financeiros também foi destaque no palco, mas recebeu uma avaliação mais cautelosa de Bernardi. Com experiência na indústria de fundos de investimento, o executivo questionou os benefícios de simplesmente adicionar uma representação digital a estruturas financeiras tradicionais.

Segundo ele, os fundos já operam com diferentes camadas de custos administrativos, jurídicos e operacionais. A criação de um token não elimina automaticamente essas despesas.

Em determinados casos, a tokenização pode representar apenas uma camada tecnológica adicional sobre uma estrutura que permanece essencialmente inalterada.

Bernardi também chamou a atenção para a diferença entre a disponibilidade de negociação e liquidez efetiva.

A possibilidade de transferir ou negociar um token durante 24 horas por dia não significa necessariamente que exista um mercado secundário profundo ou capacidade de resgate imediato do ativo subjacente.

Durante o debate, o fundo tokenizado BUIDL, da BlackRock, foi mencionado como exemplo da utilização de estruturas digitais por participantes institucionais. Na avaliação apresentada, a demanda por determinados produtos tokenizados pode estar mais associada à sua utilidade em operações financeiras e de gestão de liquidez do que ao simples interesse em possuir um token.

Bernardi acredita que o desenvolvimento desse mercado poderá exigir estruturas financeiras concebidas especificamente para ambientes digitais, em vez da simples reprodução dos modelos tradicionais sobre blockchain.

Instituições não evitam riscos, mas precisam conseguir medí-los

Fredrik Werneman, Senior Advisor de Asset Management da Blockstream Capital Partners, abordou as estratégias de investimento em Bitcoin com maior potencial de expansão no mercado institucional.

O principal obstáculo para grandes investidores não é necessariamente a existência de riscos, mas a dificuldade de mensurá-los e administrá-los.

Entre as estratégias discutidas estiveram operações neutras em relação ao mercado, exposição por meio de derivativos e estruturas de empréstimos colateralizados.

Esses modelos apresentam características já conhecidas por gestores e equipes de risco do mercado financeiro tradicional, o que pode facilitar sua avaliação e adoção.

Werneman também destacou que a capacidade de absorção de capital ainda representa uma limitação para determinadas estratégias no mercado de ativos digitais.

Embora existam oportunidades decorrentes de ineficiências e da relativa maturidade do setor, nem todas as estratégias conseguem receber grandes volumes de recursos sem comprometer sua execução ou seus resultados.

A discussão reforçou a importância de estruturas de investimento compatíveis com o tamanho e as exigências dos investidores institucionais.

Remessas e pagamentos internacionais mostram aplicações concretas

Julien Lederer, Chief Investment Officer da Blockstream Capital Partners, destacou a utilização de infraestrutura baseada em ativos digitais para pagamentos e remessas internacionais. Conforme Lederer, "a redução dos custos de transferência representa uma vantagem importante, especialmente para trabalhadores que enviam recursos a familiares em outros países".

Ele mencionou corredores de remessas envolvendo países da América Latina e citou o Brasil, nos quais as despesas associadas a serviços tradicionais podem representar uma parcela relevante dos valores transferidos.

Além dos custos, o CIO destacou a velocidade de liquidação como um benefício para instituições financeiras.

Enquanto determinados processos tradicionais de transferência internacional dependem de múltiplos intermediários e podem levar dias para serem concluídos, soluções baseadas em infraestrutura digital podem permitir liquidações mais rápidas.

O painel, entretanto, também reconheceu que o Bitcoin não é necessariamente a alternativa mais eficiente para todas as modalidades de pagamento.Bernardi observou que sistemas de pagamentos instantâneos já disponíveis na Europa oferecem custos reduzidos e elevada velocidade de processamento.

Para ele, o diferencial estratégico do Bitcoin está principalmente em suas características como rede descentralizada e ativo independente de um emissor central.

Bitcoin precisa de seu momento iPhone

Ao final do painel, Sean Bill pediu aos participantes que completassem uma frase sobre o que seria necessário para que o Bitcoin alcançasse uma integração mais ampla ao sistema financeiro institucional.

Bernardi respondeu com uma analogia ao lançamento do iPhone.

A internet já existia antes da popularização dos smartphones, mas a simplificação da experiência de uso foi fundamental para ampliar seu alcance.

Na sua avaliação, o Bitcoin ainda precisa de uma evolução semelhante.

Soluções de custódia mais simples, mecanismos robustos de segurança e experiências de utilização acessíveis seriam fundamentais para permitir que pessoas e instituições utilizem ativos digitais sem enfrentar a complexidade técnica atual.

Outros participantes destacaram a importância de integrar as diferentes etapas do ciclo de uma transação e reconheceram que as condições de mercado continuam influenciando a velocidade da adoção institucional.

O próximo capítulo da adoção institucional

O debate em Lugano mostrou que a discussão sobre o futuro do Bitcoin está avançando para questões que vão além de sua cotação.

Custódia, liquidação, crédito, tokenização e utilização de ativos digitais como garantia passaram a ocupar espaço central nas conversas sobre sua integração ao mercado financeiro.

Embora ainda existam desafios regulatórios, tecnológicos e operacionais, os participantes apontaram caminhos para a construção de um ecossistema capaz de atender investidores individuais, instituições financeiras e, potencialmente, participantes soberanos.

Assim, a tese apresentada por Bernardi resume uma das possibilidades mais relevantes discutidas no encontro: o Bitcoin poderá encontrar uma função estrutural no sistema financeiro não apenas como ativo de investimento ou meio de pagamento, mas também como instrumento de garantia.

Se essa visão ganhar escala, a próxima fase da adoção institucional poderá ser medida não apenas pelo volume de Bitcoin mantido em carteiras de investimento, mas também por sua utilização nas operações que sustentam os mercados de capitais.

Reportagem produzida a partir do painel “Building a Fully Integrated Bitcoin Financial Ecosystem”, realizado em 22 de outubro de 2026, durante o The Future of Capital Markets, em Lugano, na Suíça. O evento é parte do Plan ₿. A jornalista Aline Fernandes viajou para a Suíça a convite da Truther by RezolvePay.

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