Vale (VALE3): Renúncia de Stieler gera ruído, mas analistas veem risco político limitado

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A renúncia de Daniel Stieler da presidência e do Conselho de Administração da Vale (VALE3) pode provocar um ruído de curto prazo entre investidores, mas analistas avaliam que o episódio não altera de forma relevante a tese de investimento da mineradora nem aumenta significativamente o risco de interferência política na companhia.

A saída, anunciada nessa segunda-feira (6), ocorreu semanas antes da Assembleia Geral Extraordinária (AGE) marcada para 22 de julho, que votaria justamente sua destituição após um pedido da Previ, fundo de previdência do Banco do Brasil — e acionista referência na mineradora, hoje uma corporation .

Para Arthur Bonifácio, analista da Eleven Financial, a renúncia pode gerar uma reação inicial do mercado, especialmente entre investidores locais, já que a maioria do próprio conselho havia recomendado rejeitar a proposta da Previ.

Nesta terça, as ações caem 2,16% por volta das 12h30, negociadas a R$ 76,11.

“A notícia da renúncia de Daniel Stieler, após o pedido de destituição apresentado pela Previ, pode gerar algum ruído no mercado, principalmente entre investidores locais, diante da percepção de que o governo federal poderia estar usando o veículo de investimento como instrumento de influência sobre a governança da companhia”, afirma.

Segundo ele, a expectativa é que a Previ apoie a eleição de Manuel Lino Silva de Sousa Oliveira, conhecido como Ollie, para a presidência do conselho, em disputa com Marcelo Gasparino, atual vice-presidente do conselho, na AGE.

Ainda assim, Bonifácio considera que o risco de interferência política permanece reduzido. “A Vale não possui um acionista controlador, o que limita a capacidade de influência do governo nas deliberações societárias. Além disso, Ollie atua como conselheiro independente desde 2021 e reúne experiência em empresas globais de mineração, como Anglo American e De Beers, o que confere credibilidade ao processo de sucessão”, diz.

O receio de parte do mercado em relação à governança da Vale ganhou força nos últimos anos, especialmente após a sucessão do ex-presidente-executivo da companhia, quando o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva manifestou publicamente preferência por nomes para o comando da mineradora. Na época, houve também cobranças por maiores ivnestimentos.

Como a Previ é um dos principais acionistas da Vale, investidores passaram a acompanhar de perto seus movimentos, diante da percepção de que o fundo, que tem seu presidente indicado pelo executivo federal, poderia ampliar a influência do governo nas decisões da empresa.

A própria disputa em torno da presidência do Conselho de Administração foi interpretada por parte do mercado sob essa ótica, embora a Previ afirme que a troca busca fortalecer a independência e a governança da companhia.

Pouco risco para a Vale

João Daronco, analista da Suno Research, afirma que a saída de Stieler representa um evento de governança, e não operacional, sem impacto sobre os fundamentos da companhia. “Trata-se de um evento de governança, não operacional: não muda produção, custos, guidance ou a geração de caixa da Vale. O que importa aqui é a sucessão. Em uma companhia do porte da Vale e sem controlador definido, a presidência do Conselho possui muita relevância, principalmente por ser quem dá o tom da dinâmica do colegiado, da relação com a diretoria executiva e da continuidade da agenda estratégica, como disciplina de capital, dividendos e postura em M&A”, afirma.

Para Daronco, o principal ponto de atenção agora será a escolha do sucessor de Stieler. “Preferimos cautela na leitura até que a sucessão esteja definida. Uma transição ordenada, preservando um Conselho técnico e independente, seria um sinal tranquilizador; já eventuais ruídos ou disputas na escolha do novo presidente seriam o principal ponto a monitorar”, diz.

Já na avaliação de Pedro Galdi, analista de investimentos da plataforma AGF, a saída de Stieler já era amplamente esperada pelo mercado e a renúncia apenas antecipou um processo que provavelmente ocorreria na assembleia. “

A saída do presidente do conselho já era fato conhecido. O que aconteceu é que ele renunciou antes da necessidade de uma assembleia. Dois nomes já estão indicados para substituí-lo. Creio que o mercado já assimilou a mudança, mas vai ficar de olho em quem vai assumir”, afirma.

Questionado sobre o temor de que a Previ possa ampliar a influência do governo na Vale, Galdi reconhece que esse risco existe, mas considera que há mecanismos capazes de limitar eventuais interferências.

“É um risco, mas está associado ao direito que a Previ tem pela participação que detém na Vale. É importante ressaltar que o nível de compliance da Vale está bastante evoluído, e isso seria uma barreira para vontades distorcidas por viés político”, afirma.

Para o analista, porém, essa discussão dificilmente deve influenciar a precificação das ações. “Não acredito que isso entre no radar. As atenções para a ação continuam voltadas para a economia chinesa, a siderurgia chinesa, os estoques de minério de ferro e os preços da commodity, que seguem resilientes acima de US$ 100 por tonelada”, diz.

A disputa pelo comando do conselho começou em junho, quando a Previ pediu a convocação de uma Assembleia Geral Extraordinária para votar a destituição de Stieler. Com a renúncia de Stieler, o item referente à sua destituição deixa de fazer sentido, mas a AGE de 22 de julho será mantida para deliberar sobre os demais itens da pauta, entre eles a eleição de um novo presidente para o Conselho de Administração.