Dólar x iene: Intervenção dos EUA e do Japão no câmbio pode mexer com o real?

Não eram só relatos de operadores do mercado: os Estados Unidos e Japão confirmaram intervenções no câmbio na semana passada. A operação coordenada resultou em uma valorização de cerca de 5% da divisa japonesa frente ao dólar nesta segunda-feira (3).

Mais cedo, o iene atingiu 157,89 por dólar, um pouco abaixo do patamar de 163 – a menor cotação da moeda japonesa desde 1986 atingida no final de junho deste ano.

Esta também é a primeira intervenção cambial coordenada do G7 desde março de 2011, após o terremoto e o tsunami no Japão, e a primeira intervenção conjunta de EUA e Japão comprando ienes desde junho de 1998, quando o USD/JPY se aproximava de 150 durante a crise financeira asiática, segundo estrategistas do ING.

As projeções apontam que as intervenções entre a quinta e a sexta-feira, por parte do Japão, podem ter totalizado cerca de US$ 80 bilhões, superando a escala das operações realizadas no fim de abril. Do lado dos EUA, a Reuters publicou uma fotografia de anotações manuscritas do secretário do Tesouro, Scott Bessent, fazendo referência a planos para comprar entre US$ 5 bilhões e US$ 10 bilhões em ienes.

Para analistas e operadores do mercado, a desvalorização do iene frente ao dólar nos níveis atuais não deve ser sustentada, apesar dos esforços dos governos do Japão e Estados Unidos.

“Trata-se de uma ação pontual, voltada principalmente para promover maior estabilidade no mercado de câmbio e evitar movimentos desordenados. Portanto, não exergamos essa intervenção como gatilho para uma mudança de tendência da moeda japonesa, mas sim como uma tentativa de suavizar a volatilidade no curto prazo”, avalia Bruno Yamashita, coordenador de alocação e inteligência da Avenue.

Na avaliação de estrategistas do ING, uma queda sustentada do par USD/JPY exige dados mais fracos nos Estados Unidos, ausência de novas altas de juros pelo Federal Reserve e, possivelmente, novas iniciativas do Japão para manter mais capital dentro do país”, avaliam o chefe de mercados Chris Tuner e o estrategista Michiel Tukker, do ING.

Vale lembrar que iIntervenções “combinadas” como a do Japão-Estados Unidos na última semana são raras e, para o ING, as operações recentes apontam para “um novo ativismo cambial por parte do Tesouro dos EUA”.

Segundo Tuner e Tukker, um apoio mais promissor ao iene pode vir de políticas voltadas a redirecionar a poupança doméstica de volta para ativos japoneses. O banco projeta USD/JPY em 158 até dezembro deste ano e em 152 no fim de 2027.

Para a dupla, os investidores que esperam um ciclo agressivo de aperto monetário pelo Banco do Japão (BoJ, na sigla em inglês) para reforçar a valorização do iene “podem se decepcionar”. “A ênfase do governo Takaichi no crescimento sugere que o BoJ continuará cauteloso na retirada dos estímulos monetários”, afirmaram Turner e Tukker , em nota a clientes nesta segunda-feira.

Na mesma linha, o Goldman Sachs acredita, assim como em abril, acreditamos que altas graduais de juros pelo BoJ dificilmente fortalecerão o iene de forma sustentável. Os juros no Japão estão em 1% ao ano, no maior patamar desde 1995.

O banco também considera “pouco provável” que novas operações aconteçam novamente nos próximos dias caso o iene devolva parte do movimento de desvalorização, como ocorreu em maio deste ano.

Como isso afeta o real?

O iene é a principal moeda de funding (financiamento) para o carry trade no mundo, devido às taxas de juros historicamente muito baixas mantidas pelo Banco do Japão. Em outras palavras, os investidores tomam empréstimos em ienes a juros baixos para investir em moedas de países com juros mais altos – como os emergentes, incluindo o Brasil.

Sendo assim, movimentações de valorização do iene tendem a afetar essas operações e pressionar moedas emergentes, como o real, com desmonte posições em mercados com juros mais altos.

Contudo, a Avenue não vê esse cenário como o mais provável no momento. “Para que houvesse uma reversão relevante dos fluxos, seria necessário um movimento estrutural de fortalecimento do iene, algo que depende de mudanças mais profundas na economia japonesa”, afirma Yamashita.

“A intervenção tem impacto principalmente sobre a estabilidade cambial no curto prazo, sem alterar significativamente a dinâmica dos mercados globais ou gerar um efeito relevante sobre o real brasileiro”, acrescenta.

O Goldman Sachs, por sua vez, destaca que o real continua entre as moedas emergentes de melhor desempenho no último mês, com a melhora dos termos de troca do Brasil combinada com um ambiente de risco para mercados emergentes mais benigno do que no início de março.

Segundo os analistas do banco, um ambiente de dólar globalmente mais fraco e a continuidade de um cenário de “apetite por risco elevado e energia em alta” podem fazer com que o desempenho superior do real persista.