Chefe de análise da Ace Capital vê Bolsa em ‘preço justo’, volta a comprar Petrobras (PETR4) e recoloca Banco do Brasil (BBAS3) no radar

Navegar pelos mares revoltos do mercado ficou ainda mais difícil.

Em poucas semanas, o cenário mudou completamente: de um acordo entre Estados Unidos e Irã , que ajudou a aliviar as tensões no mercado de petróleo , para uma nova escalada do conflito, reacendendo as preocupações com a inflação e reduzindo as apostas em cortes de juros.

O Brent — referência internacional para a Petrobras (PETR4 ) — acumula alta de 22%, por exemplo. Nesse fim de semana, uma nova reviravolta: o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o Irã pediu a suspensão de uma possível ofensiva militar norte-americana , o que abriu a possibilidade de um novo acordo.

Com tanta volatilidade pelo caminho, ficar parado pode não ser o melhor caminho.

Que o diga Wesley Okada, chefe de análise da Ace Capital . Segundo ele, há apenas duas semanas o mercado voltava a discutir um ciclo de corte de juros. “E, do nada, a guerra voltou”, afirmou, em entrevista ao Money Times nos corredores da Expert XP.

Com mais de dez anos de experiência no mercado, incluindo passagens por Goldman Sachs, Itaú BBA e BankBoston, Okada diz que a gestora passou a adotar uma postura mais ativa na gestão do portfólio.

“Não estamos mais naquele cenário de comprar um papel e segurá-lo para o resto da vida, que é o que 90% do mercado faz e, de certa forma, é o playbook de qualquer gestão de renda variável”, afirma.

A ideia, segundo ele, é reagir mais rapidamente às mudanças de tese e de portfólio para acompanhar um mercado cada vez mais dinâmico. “Temos feito isso com muito mais frequência do que fazíamos no passado.”

Diante da escalada do petróleo, Okada acrescentou Petrobras (PETR3, PETR4) ao portfólio. A ação dispara 40% com a expectativa de que o petróleo turbine os dividendos. Outra estratégia é evitar empresas alavancadas. E até o Banco do Brasil ( BBAS3 ) voltou ao radar com a MP do governo para renegociação de dívidas rurais.

Okada também falou sobre eleições e analisou o cenário de Bolsa. Veja abaixo os principais trechos da entrevista:

Money Times: O que vocês fizeram nas últimas três semanas?

Wesley Okada: Voltamos a recomprar Petrobras, porque havíamos reduzido a posição. Com essa nova onda de incerteza, entendemos que fazia sentido aumentar novamente a exposição.

No restante, continuamos sem muita exposição a empresas alavancadas.

O núcleo do portfólio continua sendo formado por bancos e empresas de energia. Esse é o carro-chefe da carteira.

Money Times: Para quais bancos vocês estão olhando?

Wesley Okada: Hoje temos uma posição relevante em Itaú ( ITUB4 ) e BTG Pactual ( BPAC11 ). Também temos um pouco de Bradesco ( BBDC4 ), em uma posição menor, mas gostamos bastante do setor.

Money Times: E Banco do Brasil? Nem pensar?

Wesley Okada: Se você me perguntasse isso há duas semanas, eu responderia: nem pensar. Mas, com essa nova MP do Agro, acho que o papel volta ao radar.

A medida tende a ser transformadora para o banco. Ela foi desenhada pensando no Banco do Brasil e acredito que exista um potencial muito interessante.

Ainda assim, acho cedo para aumentar posição, porque quero ver primeiro o resultado do segundo trimestre.

Money Times: E vocês estão olhando Vale ( VALE3 ) e commodities?

Wesley Okada: Na parte de petróleo, é aquilo que comentei. Voltamos a aumentar um pouco a exposição aproveitando a volatilidade dos preços.

Já Vale continua sendo uma posição histórica, porque depende muito da China, e não estamos especialmente otimistas com o crescimento por lá. O carrego é bom, mas nada extraordinário. No geral, seguimos relativamente “underweight” em commodities.

Money Times: Você falou de empresas alavancadas. Imagino que varejo também esteja fora do radar

Wesley Okada: Se olhar apenas para valuation , muita gente vai dizer que o setor está muito barato. Mas pode ser aquele barato que permanece barato por bastante tempo.

As posições que temos em varejo são mais defensivas, sem muita alavancagem e sem apostar em uma recuperação muito forte.

Money Times: Vocês estão tomando alguma posição pensando nas eleições ou o cenário continua muito indefinido?

Wesley Okada: Continua praticamente 50 a 50. E, mais do que isso, historicamente existiam vários ativos para fazer “play” eleitoral. Hoje, basicamente, sobraram Petrobras e Banco do Brasil. São os dois ativos mais diretamente ligados ao tema.

Mesmo assim, Petrobras hoje se movimenta muito mais pelo preço do petróleo do que pelo risco político. Acaba ficando tudo muito misturado: o que é tese eleitoral e o que é tese para commodities.

Hoje não temos nenhuma posição dedicada exclusivamente ao tema eleições.

Money Times: Nas eleições passadas, muita gente dizia que, se Lula vencesse, aumentaria exposição ao varejo, apostando em maior consumo. Mas isso não aconteceu porque os juros falaram mais alto...

Wesley Okada: Exatamente. No fim das contas, a curva de juros é mais importante do que a eleição. Obviamente, o resultado eleitoral influencia a curva, mas essa é uma segunda derivada.

A primeira derivada seriam esses “plays” mais diretos em alguns ativos, e isso não estamos fazendo. As posições que temos hoje foram montadas por outros motivos, não por causa das eleições.

Money Times: Dito isso, a Bolsa está barata?

Wesley Okada: Depende de muitas variáveis. Se houver queda de juros, ela está muito barata. Se não houver, pode até estar cara. Se o cenário eleitoral caminhar para um lado, pode parecer barata; se caminhar para outro, talvez não.

Então, essa pergunta hoje não tem uma resposta objetiva, porque depende de várias variáveis que vão se definir nos próximos meses.

O que posso dizer é que, olhando a Bolsa como ela está hoje, não considero que esteja nem barata nem cara. Ela parece estar em um preço relativamente justo.

Money Times: Por quê?

Wesley Okada: Porque hoje não existe um cenário claro. Não sabemos para onde a economia vai caminhar. Quando esse cenário ficar mais definido, aí será possível responder melhor.

Se eu soubesse, por exemplo, qual será o ciclo de juros, conseguiria incorporar isso ao valuation . Se soubesse com mais clareza o cenário eleitoral, também. Mas, neste momento, não é possível.

Essa é a pergunta de um US$ 1 milhão. Quem tiver essa resposta provavelmente deveria estar muito direcional. E acho que, hoje, é muito difícil ficar extremamente posicionado para qualquer um dos lados.