A nova aposta dos fundos imobiliários (FIIs) para destravar valor aos cotistas, segundo CEO da Hedge Investments

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Pouco mais de um ano após a Comissão de Valores Mobiliários ( CVM ) autorizar a recompra de cotas pelos fundos imobiliários , a Hedge Investments , gestora com mais de R$ 12 bilhões sob administração, decidiu repetir a estratégia em um de seus 55 veículos.

Trata-se do Hedge TOP FOFII 3 ( HFOF11 ), o FII brasileiro pioneiro a colocar em prática um programa do gênero — que, entre as empresas listadas na bolsa de valores (B3), já é amplamente consolidado.

Como funciona a recompra?

No caso do mercado acionário, companhias abertas costumam recorrer a esse tipo de mecanismo quando consideram que seus papéis estão descontados, como forma de sinalizar confiança aos acionistas.

Na indústria de fundos imobiliários, a lógica é semelhante: quando um veículo recompra suas próprias cotas abaixo do valor patrimonial e posteriormente as cancelam, a diferença entre o preço pago e o valor contábil pode ser incorporada ao patrimônio dos cotistas remanescentes.

Nesse contexto, a Hedge Investments foi a primeira gestora a colocar a aprovação da CVM em prática. Em agosto do ano passado, iniciou um programa para adquirir até 11,5 milhões de papéis do HFOF11, o equivalente a 5% do total em circulação à época.

Segundo o CEO da casa, André Freitas, a operação gerou ganhos para os investidores ao ajudar a reduzir o deságio entre o preço de mercado e o valor patrimonial das cotas.

“Antes do programa, o HFOF11 negociava com desconto ao redor de 20% em relação ao seu valor patrimonial”, afirmou o executivo, em entrevista concedida ao Money Times.

“Só que, quando você faz uma recompra e cancela essas cotas, você melhora automaticamente o valor patrimonial para quem permanece como cotista”, prosseguiu.

De acordo com Freitas, a Hedge concluiu a operação em cerca de 10 meses — dois meses antes do prazo máximo previsto, que era de um ano. Pelas contas do executivo, houve ganho patrimonial de 0,9% no valor do veículo.

“Além de tudo, a recompra também funciona como uma ferramenta de liquidez para quem deseja sair do FII. Comparando os pregões antes e depois do início do programa, o volume negociado dele [HFOF11] aumentou perto de 20%”, disse ele.

Novo programa já tem data

Após considerar a primeira experiência “bem-sucedida”, a Hedge Investments aprovou um novo programa de recompra para o próprio HFOF11.

Em comunicado divulgado ao mercado, o veículo informou que a nova operação terá início já nesta sexta-feira, 17 de julho de 2026, e seguirá até 1º de julho de 2027.

Nesta segunda rodada, a gestora poderá adquirir, novamente, até 5% das cotas do FII que estão em circulação, o equivalente a 10,9 milhões de papéis, que, posteriormente, serão cancelados.

Além do HFOF11, Freitas contou que a Hedge também realiza, paralelamente, um programa de recompra do HOFC11, fundo imobiliário de lajes corporativas também administrado pela casa.

‘Mecanismo não impede novos investimentos’

Embora o CEO tenha citado os benefícios, uma das dúvidas do mercado é se o uso de caixa para adquirir cotas próprias pode reduzir a capacidade do fundo de realizar novos investimentos (capex).

Questionado sobre esse ponto, o executivo afirmou que a resposta depende da relação entre risco e retorno.

“Quando você recompra cotas com um desconto próximo de 20%, a valorização para quem permanece acontece automaticamente. É difícil encontrar outro investimento que entregue esse retorno em um período tão curto”, disse, ao acrescentar ainda que o programa não exclui novas alocações.

“Se aparecer outro ativo em que eu confie e que esteja negociando com um desconto ainda maior, eu também vou comprar.”

Vale lembrar que o HFOF11, que possui patrimônio de aproximadamente R$ 1,6 bilhão, é considerado um fundo de fundos (FOF).

Isso significa dizer que ele também pode investir em cotas de outros veículos com exposição a segmentos como shoppings, escritórios e galpões logísticos.

Limites para a estratégia

Apesar do potencial de geração de valor, especialistas consultados pela reportagem ponderam que a ferramenta não é uma estratégia automaticamente positiva e depende das condições em que é executada.

Para Renato Pereira, planejador financeiro (CFP) e sócio-fundador da Private Investimentos, o mecanismo tende a ser, de fato, mais benéfico do que negativo, mas exige uma análise cuidadosa da situação de cada fundo.

“O principal ponto é que a recompra utiliza recursos que estão em caixa. Com isso, o patrimônio do FII diminui e esse dinheiro deixa de estar disponível para novas alocações que eventualmente possam oferecer um retorno mais atrativo”, disse ao Money Times.

De acordo com o especialista, outro aspecto que merece atenção é o impacto sobre a liquidez, já que o cancelamento das cotas reduz a quantidade de papéis em circulação na bolsa.

“De modo geral, vejo mais vantagens do que desvantagens. Mas há, sim, pontos que precisam ser considerados antes da decisão.”

Para Carol Borges, analista da EQI Research, o HFOF11 é um exemplo de como o mecanismo pode funcionar quando aplicado em um contexto adequado.

“O HFOF11 é um caso que vem mostrando bem esse instrumento. Foi o pioneiro e já está com seu segundo programa em vigor”, afirmou à reportagem.

De acordo com a analista, na primeira operação, a Hedge utilizou cerca de R$ 75 milhões para recomprar papéis que representavam aproximadamente R$ 90 milhões em valor patrimonial.

Com isso, houve um ganho de cerca de R$ 15 milhões incorporado ao valor patrimonial das cotas que permaneceram no fundo.

“Vimos um sucesso e um alinhamento de interesses entre gestão e cotistas nesse sentido”, disse.

Por outro lado, assim como Pereira, Borges ressaltou que o mecanismo pode destruir os ganhos caso seja utilizado de forma inadequada.

“Se um fundo imobiliário resolve adquirir suas cotas acima do valor patrimonial, o efeito é invertido. Ele vai pagar mais do que vale o papel no balanço e vai destruir valor para quem permanece”, explicou, ao também mencionar o custo de oportunidade.

“No caso do HFOF11, na minha opinião, foi uma boa alocação. Mas, dependendo do FII, o dinheiro usado na recompra poderia ser direcionado para ativos com retorno superior.”

Outro ponto citado por Borges é que a recompra pode representar uma perda para a própria gestora no curto prazo.

Isso porque, segundo ela, como as taxas de administração e gestão costumam estar relacionadas ao patrimônio do fundo, a redução desse patrimônio pode diminuir a receita da casa.

“Com a recompra, você aumenta o patrimônio por cota, mas o patrimônio total do fundo acaba diminuindo. Então, a gestora abre mão de uma parcela das taxas no curto prazo para, no médio e longo, agregar mais valor”, afirmou.

“Mas eu acho que, assim como alavancagem e a emissão de cotas, a recompra pode ser boa ou ruim a depender de como o gestor faz o uso”, acrescentou.

Desde o início de 2026, diversos veículos de casas diferentes já anunciaram o mecanismo. Entre alguns, estão Bluemacaw Logística ( BLMG11 ), Zagros Renda ( GGRC11 ), REC Logística ( RELG11 ) e Alianza Trust Renda ( ALZR11 ).