Ao se deparar com os relatórios dos analistas sobre o resultado do segundo trimestre, a impressão é de que a BradSaúde (SAUB3 ) entregou um excelente desempenho.
O lucro de R$ 1,1 bilhão ficou acima das expectativas , com alta de 25% na comparação anual. O número superou em 19% as projeções da XP, por exemplo. O ROE (retorno sobre o patrimônio líquido) também avançou, enquanto o número de beneficiários continuou crescendo.
Na bolsa, porém, o diagnóstico foi diferente. Por volta das 11h30, as ações da companhia despencavam 8,14%, cotadas a R$ 14,78.
Mas, afinal, o que pesou mais na visão do mercado?
A resposta pode estar na sinistralidade, uma das métricas mais acompanhadas pelos investidores no setor de saúde. Em linhas gerais, ela mede quanto a operadora gasta com despesas assistenciais em relação ao que arrecada com mensalidades.
Ou seja, uma sinistralidade elevada costuma ser um mau sinal, justamente o que aconteceu neste trimestre.
No ano, os sinistros retidos cresceram 14%, elevando a sinistralidade consolidada (MLR) para 83,8% (+170 pontos-base na comparação anual), enquanto o tíquete médio do segmento de saúde, excluindo os planos administrados, avançou apenas 2%, destaca o Safra em relatório.
Além disso, as solicitações de reembolso dos planos de saúde aumentaram 13,5% em relação ao mesmo período do ano passado, superando o crescimento dos prêmios.
Em relatório, o BTG Pactual afirma que o lucro veio em linha com as expectativas, mas com qualidade inferior.
O banco destaca justamente a deterioração da sinistralidade e avalia que o desempenho só foi mais forte por causa do resultado financeiro.
O Itaú BBA também chama atenção para o segmento odontológico, que teve um trimestre mais fraco. O lucro líquido da Odontoprev foi de R$ 116 milhões, queda de 21%.
Cautela
Em coletiva com jornalistas, o CEO da BradSaúde, Carlos Marinelli, pediu cautela ao analisar a sinistralidade. Segundo ele, “sinistralidade é um tema que exige cautela o tempo todo”.
“Precisamos ter cautela em relação a esse tema, porque não dá para simplesmente assumir que a variação de um trimestre será projetada para os próximos 12 meses e que essa será a tendência.”
Segundo Marinelli, o consumo em saúde está sujeito a variações sazonais e, por isso, o mais adequado é analisar uma janela de 12 meses.
“O que observamos nesse período é uma relativa estabilidade. Por que usamos essa expressão? Porque ainda não é possível afirmar que o comportamento será exatamente igual ao dos últimos 12 meses. Ao mesmo tempo, falamos em relativa estabilidade porque também não enxergamos uma variação significativa.”
A XP concorda com essa leitura.
Para a corretora, embora o segundo trimestre possa gerar preocupação quando analisado isoladamente, as tendências do primeiro semestre permaneceram amplamente estáveis. Isso porque o Carnaval mais cedo favoreceu o primeiro trimestre, enquanto a utilização represada impactou o segundo.
Agora, os investidores deverão acompanhar de perto o terceiro trimestre, considerado decisivo. A evolução da sinistralidade será determinante para avaliar se a companhia conseguirá manter níveis estáveis do indicador na comparação anual.
Pontos positivos
Apesar da piora da sinistralidade, o BTG destaca diversos pontos positivos no trimestre, entre eles o crescimento orgânico sólido, a redução das despesas operacionais e a maior contribuição da Atlântica Hospitais.
O Safra também afirma que a BradSaúde entregou mais um trimestre de forte execução comercial, com adições líquidas de 99 mil beneficiários entre abril e junho e um recorde de 301 mil novos membros nos últimos 12 meses.
A carteira de saúde alcançou 4,075 milhões de beneficiários, alta de 8% em um ano. As adições do trimestre foram divididas entre 44 mil clientes no segmento corporativo, 31 mil em pequenas e médias empresas (PMEs) e 24 mil em planos administrados.
Hora de comprar?
Para o BTG Pactual, a BradSaúde resolveu um dos principais problemas apontados pelos investidores: a falta de transparência.
A companhia divulgou dados históricos detalhados de seus principais ativos e segmentos de negócios, retroativos ao primeiro trimestre de 2025.
“Uma das principais objeções que ouvimos ao discutir a BradSaúde é a falta de visibilidade dos números. Acreditamos que essa divulgação histórica adicional ajudará os investidores a avaliar melhor o potencial de lucro da empresa.”
Com base nesses dados recém-divulgados, o BTG calcula que o lucro líquido acumulado em 12 meses atingiu R$ 4,2 bilhões, sugerindo que a estimativa de consenso para 2026, também em torno de R$ 4,2 bilhões, “parece alcançável e talvez até um pouco conservadora”, já que o banco espera uma melhora adicional ao longo do segundo semestre de 2026.
O BTG reiterou a recomendação de compra, destacando que a companhia está bem posicionada para entregar “um sólido crescimento dos lucros nos próximos anos, à medida que continua a consolidar o mercado de seguros de saúde e a aumentar a contribuição de seu negócio hospitalar, mais lucrativo”.
“Acreditamos também que há espaço para uma reavaliação do valor da empresa, visto que o segmento hospitalar representa uma parcela maior dos lucros, uma tendência que já começou a se manifestar nos resultados deste trimestre.”
A XP também manteve recomendação de compra e destaca três fatores principais:
aceleração do crescimento da base de beneficiários, impulsionando a expansão da receita; elevada disponibilidade de caixa (R$ 8 bilhões, excluindo o capital regulatório), permitindo novas oportunidades de crescimento via M&A, especialmente no segmento hospitalar, que negocia a múltiplos estruturalmente superiores aos do negócio de seguros; valuation de 11 vezes preço/lucro (P/L) para 2027, abaixo das 13 vezes negociadas pela Rede D’Or (RDOR3).