Casas Bahia pede recuperação judicial com passivo de R$ 17,3 bilhões

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Casas Bahia pede recuperação judicial com passivo de R$ 17,3 bilhões

O Grupo Casas Bahia protocolou pedido de recuperação judicial na noite de domingo (16). A ação foi apresentada na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo. Na petição, a varejista informa passivos de R$ 17,3 bilhões.

A recuperação judicial é o processo em que uma empresa endividada pede à Justiça um prazo para renegociar dívidas e evitar a falência. Durante esse período, as cobranças ficam suspensas e a companhia apresenta um plano de pagamento aos credores.

O pedido foi aprovado pelo conselho de administração e contou com o aval do acionista controlador. Além da holding, entram no processo subsidiárias como Cnova Comércio Eletrônico, Bartira, Casas Bahia Tecnologia e empresas de logística do grupo.

A companhia também convocou uma Assembleia Geral Extraordinária para que os acionistas ratifiquem a decisão, tomada em caráter de urgência.

Como se divide o passivo de R$ 17,3 bilhões

Do total informado, R$ 16,4 bilhões estão com credores quirografários. Esse termo designa quem emprestou dinheiro ou forneceu mercadorias sem qualquer garantia real, como imóveis ou equipamentos. São os últimos da fila a receber.

O grupo lista 19,4 mil credores nessa condição. Há ainda R$ 754 milhões em dívidas trabalhistas e R$ 154 milhões com microempresas e empresas de pequeno porte.

A petição inclui pedido de liminar. A varejista quer impedir o vencimento antecipado de contratos e evitar que transportadoras retenham produtos da rede.

No fato relevante enviado à Comissão de Valores Mobiliários, a companhia afirmou que o pedido "mostra-se necessário e configura mais um passo na direção da reestruturação financeira".

Prejuízo de R$ 10,1 bilhões antecipou o pedido

A decisão veio um dia depois da divulgação do balanço do segundo trimestre. O prejuízo líquido chegou a R$ 10,1 bilhões, valor 18 vezes maior que a perda de R$ 555 milhões registrada um ano antes.

Boa parte do rombo não passou pelo caixa. A empresa contabilizou R$ 9,1 bilhões em efeitos não recorrentes, como baixa de ativos, gastos com reestruturação e contratos não performados. Sem esses ajustes, o prejuízo ajustado ficou em R$ 978 milhões.

O item mais pesado foi a baixa de R$ 5,7 bilhões em imposto diferido. Trata-se de créditos tributários que a empresa esperava usar para abater impostos futuros. Como as projeções de lucro pioraram, esses créditos deixaram de ter valor contábil.

No primeiro semestre, o prejuízo acumulado somou R$ 11,18 bilhões. O patrimônio líquido virou negativo em R$ 8,27 bilhões, contra saldo positivo de R$ 1,5 bilhão um ano antes. Patrimônio líquido negativo significa que as dívidas superam tudo o que a empresa possui.

Por que a EY não assinou o balanço da Casas Bahia?

A auditoria EY não emitiu opinião sobre as demonstrações financeiras do trimestre. Os auditores afirmaram não ter conseguido concluir se a companhia poderia seguir operando normalmente em 30 de junho.

A ausência de opinião é um sinal grave. Ela indica que os auditores não obtiveram acesso ou confirmação suficientes para avaliar os números apresentados.

Os auditores apontaram ainda que o passivo circulante superou o ativo circulante em R$ 11,97 bilhões no balanço individual e em R$ 7,83 bilhões no consolidado. Na prática, o dinheiro e os recebíveis de curto prazo não bastam para cobrir as contas que vencem no mesmo período.

Falta de crédito derrubou estoques e vendas

O aperto financeiro chegou à operação diária. Fornecedores e seguradoras internacionais, que garantem as vendas dos grandes fabricantes à varejista, reduziram os limites de crédito comercial.

Com menos crédito, a rede não conseguiu repor mercadorias. Os estoques consolidados caíram de R$ 5,4 bilhões em março para R$ 4,2 bilhões em junho. Em dias de estoque, indicador que mede por quanto tempo a mercadoria disponível atende às vendas, o número passou de 95 para 75 dias. O patamar considerado adequado é de 90 dias.

O efeito apareceu no faturamento. A receita líquida subiu apenas 1,6% no trimestre, para quase R$ 7 bilhões, enquanto as despesas com vendas avançaram 17%, para R$ 1,8 bilhão. As vendas nas lojas caíram 3,5% e as do marketplace recuaram 2,4%.

298 lojas fechadas e cerca de 2 mil demissões

A companhia concluiu na sexta-feira (14) o fechamento de 298 lojas. O número equivale a cerca de 29% das 1.034 unidades que o grupo mantinha no fim de junho.

O corte veio acompanhado de aproximadamente 2 mil demissões, com potencial de superar 3 mil pessoas. A empresa não detalhou o tamanho dos desligamentos.

Segundo o balanço, o plano busca "priorizar canais e categorias de maior rentabilidade, reduzindo o capital empregado". A varejista afirma que quer concentrar a operação em negócios com margens maiores.

O que muda para clientes e credores?

A Casas Bahia informou que manterá as operações durante o processo. Segundo a companhia, não haverá interrupções relevantes no atendimento em nenhum canal de venda.

Para os credores, o cenário é outro. O grupo pretende renegociar e alongar dívidas financeiras e operacionais, buscando uma solução definitiva para a estrutura de capital.

Não é a primeira reestruturação da rede. Em 2024, a companhia passou por uma recuperação extrajudicial e renegociou cerca de R$ 4,1 bilhões com credores financeiros. O plano foi homologado pela Justiça em junho daquele ano.

Juros altos e o pano de fundo da crise no varejo

A empresa atribuiu a deterioração ao ambiente macroeconômico. Cita juros elevados, restrição de crédito, aumento do custo financeiro e pressão sobre o consumo e o capital de giro. Capital de giro é o dinheiro que a empresa precisa ter disponível para tocar o dia a dia, como pagar fornecedores e repor estoque.

A varejista tentou captar recursos no exterior. Houve reuniões com investidores do Brasil, dos Estados Unidos e da Europa, mas o principal interessado desistiu da operação. Alternativas de liquidez, incluindo empréstimos ponte, também não avançaram.

O ciclo de juros começou a ceder neste ano. O Copom reduziu a Selic para 14,00% ao ano na reunião de agosto, o quarto corte consecutivo. O alívio, porém, chegou tarde para a companhia.

O grupo acumula resultados negativos desde 2024 e reportou prejuízo em 20 dos 30 trimestres seguintes à saída do controle do GPA, em 2019. Na B3, a ação BHIA3 acumula queda de 78% em 2026.

Leia a história original Casas Bahia pede recuperação judicial com passivo de R$ 17,3 bilhões por Lucas Espindola em br.beincrypto.com