Em 15 de setembro, o Senado dos EUA votou por 49 a 50 sobre a possibilidade de iniciar o debate sobre a CLARITY Act, o projeto de lei de estrutura de mercado que o setor de cripto negocia há mais de um ano.
Eram necessários sessenta votos. Nenhum democrata foi favorável e as razões para a rejeição estavam mais ligadas à associação do setor do que ao texto em si.
Em Washington, o setor cripto aprendeu a fazer políticos ouvirem
O que aconteceu logo depois foi mais revelador que a própria votação. Dias depois, a Fairshake anunciou que investiria US$ 30 milhões contra a candidatura ao Senado de Sherrod Brown em Ohio.
A Fairshake é um super PAC, um tipo de comitê permitido pela legislação americana, que pode gastar sem limites para apoiar ou se opor a candidatos. A maioria dos recursos vem da Coinbase, da Ripple e da Andreessen Horowitz.
No mesmo período, a Stand With Crypto, associação criada pela Coinbase em 2023 para classificar parlamentares conforme suas posições em relação à cripto e mobilizar eleitores, alertou que os senadores que barraram o projeto poderiam pagar por isso nas urnas em 3 de novembro.
Muitos profissionais do setor consideram essa movimentação desconfortável. Mesmo assim, acredito que será eficaz.
🚨Revenge spend: Following the demise of the Clarity Act, Fairshake is gearing up to make its biggest spend of the year: million against Sherrod Brown as he takes another shot at returning to the Senate, where, if successful, he could reclaim his seniority and return as chair… https://t.co/WLf9ChHnFv
— Eleanor Terrett (@EleanorTerrett) September 21, 2026
Os políticos americanos perceberam em 2024, quando a Fairshake investiu cerca de US$ 40 milhões para ajudar a derrotar Brown pela primeira vez, que a cripto passou a ser uma pauta acompanhada de orçamento expressivo.
Uma pesquisa da Politico realizada nesta primavera mostrou que apenas 3% dos americanos conheciam o nome Fairshake, o que revela quem é o público-alvo real: parlamentares do Congresso, que estão bastante familiarizados com o grupo.
Na Argentina, um escândalo cripto fala mais alto que milhões de usuários
A América Latina não possui nada parecido, e na minha opinião, a limitação não se deve apenas ao aspecto financeiro.
Há algum tempo, estive com colegas do setor no Congresso argentino para debater uma assimetria tributária com senadores e deputados. Era uma pauta técnica, o tipo de reunião que geralmente termina com um assessor anotando os principais pontos.
Entretanto, o único assunto que desejavam discutir era o LIBRA, token promovido pelo presidente Milei no X em fevereiro de 2025 e que colapsou em poucas horas.
Essa é a consequência de quando parlamentares enxergam apenas um escândalo, e não a base de eleitores do setor. Na Argentina, esses eleitores existem.
Segundo relatório do setor, cerca de 12,4% da população utilizou um aplicativo de cripto mensalmente em 2025, a maior taxa da região, equivalente a aproximadamente um em cada oito argentinos.
Um grupo desse porte normalmente seria disputado por qualquer político, mas permanece praticamente invisível para quem cria as normas, em parte porque nunca foi feito esforço concreto para torná-lo visível.
Argentina’s President Reportedly Took M to Promote LIBRA Crypto
— BeInCrypto (@beincrypto) March 16, 2026
Leaked files suggest Argentina’s President Javier Milei agreed to a M deal to promote the LIBRA cryptocurrency pic.twitter.com/WKXehzDUPP
Eleição acirrada no Brasil evidencia oportunidade desperdiçada
O Brasil oferece um novo teste desse argumento. Em 25 de outubro, Luiz Inácio Lula da Silva venceu o segundo turno presidencial contra Flávio Bolsonaro com cerca de 51,8% dos votos válidos ante 48,2%, garantindo o quarto mandato.
Este resultado inverteu o da primeira etapa em 4 de outubro, quando Bolsonaro havia liderado com 47,03% ante 45,16% de Lula.
Uma eleição tão disputada, decidida por poucos pontos, é justamente onde um grupo bem organizado de eleitores pode fazer diferença. Porém, tanto no Brasil quanto na Argentina, os usuários de cripto seguem sem demonstrar ação coletiva.
https://www.youtube.com/watch?v=sdEL_YVoiEcO poder político da cripto ainda não utilizado
Reproduzir o modelo Fairshake não é viável nem desejável na região, devido à legislação de financiamento eleitoral e à cultura política. Contudo, dois pontos da estratégia americana são aplicáveis localmente.
Associações do setor devem atuar além do papel técnico e começar a registrar e divulgar informações objetivas sobre como cada parlamentar vota e se posiciona diante de ativos digitais, assim como a Stand With Crypto avalia congressistas nos EUA.
Além disso, plataformas precisam apresentar dados concretos. As exchanges sabem, de forma agregada, quantos clientes residem em cada estado, quantos recebem salários em stablecoins e quantos economizam em dólar devido à falta de opções melhores no sistema bancário local.
Levar esse panorama detalhado ao gabinete de um senador pode transformar o diálogo.
O setor passou anos pedindo espaço às autoridades reguladoras e, em boa parte dos países, já conquistou presença nas discussões.
O que ainda falta é uma forma de mostrar aos legisladores, antes que um novo escândalo faça isso por eles, que quem utiliza essas ferramentas também vota.
Leia a história original Por que a cripto ainda tem pouca influência na política e nas eleições da América Latina? por Julián Colombo em br.beincrypto.com