As maiores plataformas de cripto que operam no Brasil entraram na reta final da regulação. Em pouco mais de uma semana, Bybit, Binance e Mercado Bitcoin protocolaram pedidos de autorização no Banco Central (BC). O Itaú Unibanco, maior banco privado do país, formalizou sua operação de cripto por outro caminho, reservado aos bancos.
O prazo para que as empresas que já operavam com cripto peçam autorização termina nesta sexta-feira (30). Quem não pedir fica fora do mercado regulado. Para o investidor, a pergunta deixou de ser qual plataforma é melhor. Passou a ser quais delas vão continuar existindo.
Quem já se adequou às regras do Banco Central?
A Bybit foi a primeira do grupo. Protocolou o pedido na terça-feira (20) para atuar como prestadora de serviços de ativos virtuais.
A Binance veio na sexta-feira (23). O pedido saiu em nome da BBrasil, empresa do grupo, na modalidade intermediária, que é a licença para comprar e vender cripto em nome do cliente.
O Mercado Bitcoin protocolou nesta terça-feira (27) o pedido para atuar como corretora de ativos virtuais, modalidade que reúne intermediação e custódia, que é a guarda dos ativos.
No mesmo dia, o Itaú comunicou ao BC sua atuação com intermediação e custódia de cripto. A informação foi publicada primeiro pelo jornal Valor Econômico.
Quanto custa ficar no mercado cripto regulado?
A nova regulação exige capital, governança, controles internos, segurança cibernética, gestão de riscos e prevenção à lavagem de dinheiro. Cada exigência tem um preço. A Bybit deu uma medida concreta: investiu cerca de R$ 30 milhões para integralizar o capital da operação brasileira, ou seja, colocar de fato o dinheiro no caixa da empresa. Também montou uma diretoria dedicada ao país.
Esse custo explica a reorganização do setor. Plataformas grandes conseguem pagar. As menores fecham, mudam o modelo de negócio ou buscam um parceiro. O Mercado Bitcoin está do lado que recebe. Fechou acordos com a Bitso e a Bity para absorver os clientes dessas plataformas no Brasil e foi indicado pela Coinext aos seus usuários. Hoje soma quase 5 milhões de clientes.
“A regulação marca um day 1 para a indústria. Ela abre a porta para o mercado institucional, que até aqui esperava regras claras para aderir”, afirma Roberto Dagnoni, CEO e chairman do Mercado Bitcoin.
Bancos entram no mercado cripto por um caminho mais curto
O Itaú não precisou pedir licença. Como já é um banco autorizado e supervisionado pelo BC, a regra permite que ele apenas comunique a atividade, acompanhada de uma certificação técnica independente que comprove o cumprimento das exigências.
Não é uma licença automática, mas o ponto de partida é outro. Um banco grande já carrega capital, governança e controles por exigência do próprio negócio bancário. As corretoras precisam construir essa estrutura e depois esperar a análise do regulador.
O Itaú oferece cripto desde dezembro de 2023. Hoje o catálogo tem 15 criptoativos, entre eles Bitcoin, Ethereum, Solana, XRP e USDC, uma stablecoin, que é a cripto atrelada ao valor do dólar.
A entrada dos bancos ajuda a entender uma preocupação levantada pelo Mercado Bitcoin. “O desafio agora será garantir que essas regras sejam aplicadas de forma equivalente a todos os participantes, criando condições para uma concorrência equilibrada e um crescimento sustentável”, afirma Vanessa Butalla, vice-presidente de Jurídico, Compliance e Riscos da empresa.
O que muda para o dinheiro de quem investe em cripto
O primeiro efeito é a proteção. As regras exigem segregação patrimonial, que separa o dinheiro dos clientes do caixa da empresa, e contas individualizadas, em que cada cliente tem registro próprio. A lógica é dificultar que problemas financeiros da plataforma atinjam os recursos de quem investe nela.
O segundo efeito é a concentração. Menos corretoras significam menos opções. Em mercados mais concentrados, a pressão para reduzir taxas e spreads tende a ser menor. Spread é a diferença entre o preço de compra e o de venda, um custo embutido em cada operação.
O terceiro efeito é o cardápio de produtos. A Binance admite que precisou descontinuar serviços no Brasil para cumprir a regulação. “Esperamos que o contínuo diálogo com o Banco Central nos permita oferecer, no futuro próximo, outros produtos que foram descontinuados para atender à regulação vigente, de forma a permitir que usuários brasileiros tenham acesso às mesmas oportunidades oferecidas globalmente”, afirma Thiago Sarandy, diretor-geral da Binance no Brasil. A empresa não detalhou quais produtos saíram.
Pedido protocolado não é licença aprovada
Os protocolos de Bybit, Binance e Mercado Bitcoin abrem a análise do BC, mas não garantem a autorização. A própria Bybit faz essa ressalva no comunicado. A Binance ainda aguarda a avaliação de uma certificação técnica enviada ao regulador em 1º de setembro.
Também faltam dados para medir o tamanho da mudança. Nenhuma das empresas informou quantos clientes migraram de plataformas que fecharam, e o Itaú não tem números públicos de clientes ou volume negociado em cripto.
O que acompanhar depois de sexta-feira?
O investidor deve observar quatro sinais. O primeiro é a lista final de empresas que pediram autorização, que mostra quem pretende seguir no mercado. O segundo são novos fechamentos e migrações de clientes. O terceiro é se outros grandes bancos vão seguir o Itaú. O quarto é o comportamento das taxas e dos spreads, que vai mostrar se a concentração pesa no bolso de quem negocia cripto no Brasil.
Leia a história original Corretoras e bancos correm ao Banco Central antes do fim do prazo para operar cripto por Lucas Espindola em br.beincrypto.com