Petróleo em queda reabre discussão sobre cortes da Selic, diz BofA

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A forte queda dos preços do petróleo nas últimas semanas alterou uma das principais premissas do mercado para a economia global e passou a influenciar diretamente as expectativas para inflação e juros no Brasil e no exterior.

Para o chefe de economia no Brasil e estratégia para América Latina do Bank of America (BofA), David Beker, a commodity deixou de representar um fator de pressão inflacionária e passou a abrir espaço para uma desaceleração mais rápida dos índices de preços, embora o cenário siga cercado por incertezas.

“O mercado tem errado muito o preço do petróleo”, afirmou durante coletiva de imprensa nesta sexta-feira (3). Segundo ele, a expectativa era de que os preços permanecessem elevados após o conflito entre Israel e Irã, diante da possibilidade de recomposição dos estoques estratégicos mundiais. O movimento, porém, surpreendeu.

“Em teoria a guerra acabou, mas é difícil prever o que vai acontecer. No dia seguinte ao anúncio do cessar-fogo já tivemos novos bombardeios. Ainda assim, a grande surpresa foi a volta do petróleo”, explicou.

Na avaliação do economista, a rápida desvalorização da commodity recolocou no radar um cenário de desinflação de bens, justamente em um momento em que a inflação de serviços continua elevada em boa parte das economias.

No ano passado, lembrou Beker, a inflação de serviços seguia pressionada enquanto os bens ajudavam a conter os índices gerais de preços. O choque provocado pela alta do petróleo alterou essa dinâmica ao pressionar novamente os bens. Agora, com a commodity em queda, o movimento pode se inverter.

“A principal discussão hoje é em que medida a desinflação de bens pode compensar a inflação de serviços”, avalia.

Segundo ele, essa será uma das principais variáveis acompanhadas pelos bancos centrais nos próximos meses. “Temos que olhar como essa queda do petróleo ajuda a inflação e como isso muda o call de juros no mundo.”

Petróleo muda debate sobre a Selic?

No Brasil, a nova dinâmica do petróleo também alterou a discussão sobre os próximos passos do Banco Central .

O cenário-base do BofA continua sendo de manutenção da Selic em 14,25% até o fim deste ano. No entanto, Beker admite que esse posicionamento passou a ser mais questionado após a combinação de petróleo mais barato, inflação abaixo do esperado e sinais de desaceleração da atividade.

Entre os fatores que reforçaram essa percepção estão a surpresa positiva dos últimos indicadores de inflação, o Caged mais fraco do que o esperado e o fato de o Banco Central já ter promovido um corte de 0,25 ponto percentual em um ambiente considerado mais adverso.

“Se o BC teve espaço para cortar naquele cenário, agora você tem petróleo mais baixo, inflação melhor do que o esperado e uma atividade mais fraca. O risco de mais um corte aumentou, sem dúvida.”

Apesar disso, a instituição segue projetando estabilidade da taxa básica neste ano, argumentando que a inflação continua distante da meta e que a política fiscal e as medidas de expansão do crédito ainda sustentam a demanda doméstica.

O banco espera que o ciclo de afrouxamento monetário comece apenas em 2027, com quatro cortes de 0,25 ponto percentual, levando a Selic para 13,25%. Em 2028, a expectativa é de mais quatro reduções, encerrando o ciclo em 12,25%.

Segundo Beker, a velocidade das mudanças no cenário tornou o trabalho de projeção muito mais complexo.

“Quarenta e quatro dias entre um Copom e outro viraram uma eternidade”, brincou.

El Niño e PEC 6×1 seguem fora das contas

Embora a queda do petróleo contribua para um cenário de inflação mais favorável, o economista destacou que dois riscos importantes ainda não foram incorporados às projeções do banco.

O primeiro é um eventual episódio severo de El Niño , que no pior cenário desenhado pela equipe macroeconômica do banco poderia adicionar 180 pontos-base à inflação nos próximos 12 meses.

O segundo é a proposta de mudança na jornada de trabalho, conhecida como PEC 6×1. Segundo Beker, os efeitos econômicos ainda são difíceis de mensurar, mas representam um fator de risco para a inflação.

Hoje, o Bank of America projeta IPCA de 5,5% neste ano e de 4,7% em 2027.

Economia deve desacelerar nos próximos anos

Mesmo com um cenário potencialmente mais benigno para a inflação, o banco avalia que a economia brasileira deverá perder força nos próximos anos.

A projeção para o crescimento do PIB em 2027 foi reduzida de 2% para 1,3%, refletindo os efeitos dos juros elevados por mais tempo e a perda de tração das medidas de estímulo implementadas pelo governo.

“Independentemente do cenário político, vamos ter uma desaceleração da economia no ano que vem.”

Na visão do economista, esse cenário deve prevalecer independentemente do resultado das eleições presidenciais. O banco trabalha com a hipótese de que haverá algum ajuste fiscal após o pleito, embora ainda seja impossível estimar sua intensidade ou composição.

Fed é um risco para o Brasil

Apesar da melhora recente provocada pela queda do petróleo, Beker avalia que o principal risco para economias emergentes continua sendo a política monetária dos Estados Unidos.

O Bank of America mantém uma projeção mais dura do que a do mercado e espera três altas de juros pelo Federal Reserve a partir de setembro, totalizando 75 pontos-base neste ano. Hoje, os investidores precificam cerca de 40 pontos-base de aperto monetário.

Segundo o economista, esse cenário reflete a avaliação de que a inflação americana permanece pressionada e a atividade econômica segue resiliente, embora reconheça que os dados mais recentes, especialmente o payroll mais fraco, tenham aumentado os riscos para essa projeção.

Caso o cenário se confirme, o impacto sobre países emergentes tende a ser negativo: “Se esse call se materializar, é muito ruim para emergentes”.

Na avaliação do BofA, juros mais altos nos Estados Unidos fortaleceriam o dólar, reduziriam o fluxo de capitais para mercados emergentes e diminuiriam o espaço para cortes da Selic no Brasil, mesmo em um ambiente de inflação mais favorável.