Mercado de trabalho deve ditar a política monetária no médio prazo, avalia economista-chefe do Daycoval

Os dados recentes mais benignos da inflação não foram suficientes para alterar as estimativas do Banco Daycoval para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo ( IPCA ) e a Selic em 2026. A instituição segue com previsão de 5,2% para o IPCA e de 14% para o juro básico no fim deste ano.

De acordo com o economista-chefe do banco, Rafael Cardoso, em entrevista ao Money Times, a vantagem de traçar um cenário macroeconômico de forma menos “curto prazista” é evitar grandes ruídos nas projeções.

Mesmo após o dado mais fraco do IPCA de junho, de alta de 0,16%, e da prévia da inflação de julho, de avanço de 0,06%, o Daycoval manteve a projeção de apenas mais um corte de 0,25 ponto percentual na Selic na reunião de agosto do Comitê de Política Monetária ( Copom ) do Banco Central (BC).

“Óbvio que nós fomos surpreendidos pelo IPCA mais fraco, mas mesmo se viesse um número maior, acreditamos que o Banco Central iria cortar a taxa de juros”, afirma Cardoso. “A novidade, que essa considero mais relevante para a política monetária, tem a ver com a atividade econômica, porque é a primeira vez que vemos o mercado de trabalho com sinais de fraqueza mais claros.”

Segundo Cardoso, se antes a discussão era se o Produto Interno Bruto ( PIB) desaceleraria ou não com a política monetária, isso já aconteceu.

“A dúvida passou a ser se isso chegaria no mercado de trabalho e, mais recentemente, parece ter chegado”, afirma o economista. “No médio prazo, a desaceleração do mercado de trabalho é o mais importante para a política monetária.”

O economista avalia que, ao considerar a Selic em patamar elevado, o BC espera ver o enfraquecimento da queda de rendimentos no mercado de trabalho

Em maio, o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados ( Caged ) registrou abertura líquida de 72.960 vagas com carteira assinada, segundo o Ministério do Trabalho. O saldo foi o pior para o mês desde 2020.

Contudo, o dado de junho interrompeu a sequência de números abaixo do esperado, com criação de 145.161 postos formais, próximo do teto das estimativas da pesquisa Projeções Broadcast , de 147 mil vagas, enquanto a mediana era de 110 mil.

Para o economista-chefe do Daycoval, apenas o número não altera a leitura. “O mercado de trabalho continua dando sinais de desaceleração e a média móvel trimestral dos saldos do Caged permanece abaixo das 100 mil vagas”, explica.

Por que a projeção de IPCA segue elevada

De acordo com Cardoso, o Daycoval manteve a projeção de alta de 5,2% para o IPCA em 2026 devido ao efeito do El Niño. Apesar de a inflação de serviços seguir rodando acima de 5%, ela não é vista pelo economista como “o maior risco” do cenário inflacionário hoje.

Em caso de super El Niño, o banco estima que o IPCA possa chegar a 5,7% neste ano, com um incremento de 0,5 ponto percentual partindo da parte de alimentação.

Apesar do choque do petróleo acrescentar volatilidade no curto prazo, Cardoso afirma que o impacto é zero no horizonte relevante do Banco Central, por ser considerado um fator pontual.

Copom e ruídos

Para a Selic, o banco prevê um corte residual de 0,25 ponto percentual para a reunião de agosto, com o juro básico estacionado em 14% até o final do ano. Já em 2027, após as eleições presidenciais, o economista afirma que o cenário será de “ver o que acontece” na trajetória da Selic.

Na avaliação de Cardoso, o Banco Central não pode ser acusado de ser leniente com a inflação, visto que não há uma problemática. “A maior problemática é quando o BC segue com o ciclo de cortes em um ambiente de expectativas desancoradas, choque de preços, atividade mais fraca, mas mercado de trabalho ainda resiliente”, diz.

O economista considera que o BC “conseguiu se sair bem” nas incertezas quanto à continuidade do ciclo de cortes, apesar de que o último comunicado trouxe ruídos ao mercado quando o Copom optou por fornecer mais informações sobre a decisão de juros.

“É um pouco o dilema do Kevin Warsh [presidente do Federal Reserve] lá fora de dar menos informação. Mas tem algo que chama a atenção: você sempre vai ter a discricionariedade de olhar se o horizonte está mais para lá ou mais para cá?”, questiona o economista-chefe do Daycoval.

Cardoso lembra que na época em que o economista Ilan Goldfjan esteve à frente do BC a comunicação tinha menos margem de ruído, visto que eram explicitados dois cenários, o cenário ata e o cenário do Relatório Focus.

A medida já é adotada por bancos centrais no exterior, como o Banco Central Europeu ( BCE ), que, em vez de fornecer um “forward guidance”, traça cenários possíveis para a trajetória de juros de acordo com os preços do petróleo.